Crítica: The Yellow Sea (Mar Sangrento) [2010]

  “The Yellow Sea”, ou “Mar Sangrento” como é seu nome oficial no Brasil, ou ainda “Mar Amarelo” que foi o nome usado quando foi transmitido pelo Space esse ano, é o segundo trabalho do diretor Hong-jin Na, que fez o excelente “O Caçador” (2008). O Caçador me serviu de entrada para o mundo sangrento do cinema sul coreano e sem nenhuma hesitação digo que é um dos melhores filmes da década.

“Mar Sangrento” não só é mais sombrio como também mais violento e muito mais ambicioso que seu antecessor. O filme é sobre um mundo cruel e sem regras impulsionado pela natureza humana, que apenas gera mais caos e desordem, e de certa forma também é sobre escolha e consequência. Tudo isso misturado com uma violência visceral formando uma experiência desagradável (no bom sentido) que constrói uma trama com muita exaustão, angústia e ansiedade que se colide no seu clímax.

Na versão internacional/versão do diretor, o filme traz informações úteis que você deve saber antes de cair de cabeça na trama. A história começa em Yanji, a capital da Prefeitura Autônoma de Yanbian na China, que faz fronteira ao norte com Mudanjiang, ao sul com Coréia do Norte, ao oeste com cidade de Jilin, e ao leste com a Russia. Muitos coreanos migraram para essa área no início do século 20 com o intuito de fugir da opressão causada pela Ocupação Japonesa (1910-1945), e muitos deles escolheram permanecer mesmo depois que a Segunda Guerra Mundial acabou. Muitos desses “Coreanos/Chineses” eram chamados de Joseonjok ou Chaoxianzu em Chinês, eles falam Coreano e o Mandarim padrão sendo assimilados como uma sociedade chinesa.

         “E vocês achavam que só os brasileiros tinham sangue de imigrante…”

Quando a Guerra Fria acabou, China e Coreia do Sul não eram mais inimigas desde os anos 90, e o povo “Joseonjok” começaram a ir para a Coreia do Sul para ganhar dinheiro como outros imigrantes do lado sudeste da Ásia e da África. Alguns deles vivem e trabalham legalmente, mas outros não, então eles vem sendo uma “questão social” na Coreia do Sul, junto com outros imigrantes ilegais.

O personagem central de “Mar Sangrento” é Gu-nam (interpretado pelo ótimo Jeong-woo Ha) que trabalha como motorista de táxi em Yanji. Sua esposa migrou para a Coreia do Sul para trabalhar, mas não se tem notícias ou dinheiro enviado por parte dela à muito tempo. De cara se nota a frustração de Gu-nam sobre isso. Vivendo sozinho em um apartamento miserável (a única filha deles mora com a mãe de Gu-nam), ele vem vivendo uma vida tão miserável quanto seu apartamento cheio de desespero e afundado em dívidas. Ele vem sendo alvo de cobranças, afinal ele deve 60,000 Yuan (cerca de R$32.244,00), e os agiotas continuam visitando sua casa e sarcasticamente o lembrando que nem se ele vender todos os seus órgãos ele pode resolver seu problema. Pra piorar ainda mais sua situação, ele foi, recentemente, despedido de seu trabalho.

Um dia, o chefe do crime local Myeon Jeong-hak (interpretado pelo incrível Kim Yoon-Seok), se aproxima de Gu-nam com uma oferta que ele não pode recusar, Se ele for para  Seoul (Coreia do Sul) e matar um homem, Myeon-ga vai resolver seus débitos. Porém tem um tempo limite para o crime ser feito, e ele ainda vai ter a chance de procurar sua esposa. Gu-nam aceita, pega um trem para Dalian (China) e então se junta a outros imigrantes ilegais para atravessar o tal mar amarelo para entrar na Coreia do Sul.

A história é dividida em quatro capítulos. O primeiro chama-se Táxi Driver, focado em estabelecer Gu-nam e sua vida cotidiana miserável e desesperada. Hong-jin Na faz um ótimo trabalho em capturar vividamente o sentimento depressivo em torno do personagem. Gu-nam não fala muito sobre si mesmo, exceto em uma narrativa na abertura ‘aparentemente’ sem sentido sobre a epidemia da raiva durante sua infância, mas pequenos momentos com breves diálogos dizem muito sobre sua vida pacata. Há uma breve cena com seu sogro que não tem muito a dizer, exceto um breve pedido de desculpas, enquanto Gu-nam olha para o quadro de vidro esmagado de sua fotografia no dia de seu casamento. Eles provavelmente estavam felizes naquele momento mas agora Gu-nam é assombrado por sonhos de sua esposa tendo um caso com alguém na Coreia do Sul. Ela realmente o abandonou como todos dizem?

O filme leva uma quantidade considerável de tempo em um ritmo lento, enquanto lentamente vai construindo uma tensão com o prazo para consumar o crime que vai chegando ao fim. No segundo capítulo (Assassino), acompanhamos Gu-nam e seu plano inteligente para executar o assassinato e sua busca por sua esposa. Nota-se o interessantíssimo jeito que Hon-jin Na nos mostra toda a apreensão, medo e tensão que Gu-nam sente em quanto vigia seu alvo, não por meio de palavras, mas por meio de expressões e gestos. Chegando ao fim do prazo imposto por Myeon para a consumação do assassinato, o filme nos entrega um clímax para toda essa tensão construída ao longo do segundo capítulo que se colide de forma sangrenta e surpreendente, a violência é pesada e com uma reviravolta incrível, tudo filmado de forma impecável e com uma trilha sonora de dar frio na espinha, interessante notar a forma como o diretor nos corta da violência extrema para a calmaria e ansiedade de Gu-nam, filmado de forma similar com o que fez em O Caçador onde tínhamos o serial killer em sua tentativa de matar uma vítima com um Chisol de forma brutal e um corte para o personagem principal em um contexto totalmente diferente. Sem dar spoilers sobre a reviravolta em si, Gu-nam se encontra encurralado logo após a sequência, e saindo de toda essa “tensão sangrenta” temos uma perseguição de tirar o fôlego pelas ruas do bairro.

  A partir do terceiro capítulo (“Joseonjok”) a trama cresce e se complica. Acontece que um chefe do crime que opera em Seoul, Kim Tae-won (Cho Seong-ha), está envolvido com o incidente e tenta desesperadamente limpar seus rastros, colocando Gu-nam como seu alvo principal. A trama fica complexa de forma tão repentina que é normal se perder em meio aos acontecimentos nesse terceiro capítulo. O problema fica tão grande que o próprio Myeon-ga vai para a Coreia do Sul com seus capangas pra tentar entender  resolver a situação. Na verdade entender a situação problema é exatamente o que faz muita gente se perder nesse filme, é aqui também que o gore mostra as caras, com Myeon-ga na área começa um festival de brigas de facas, machados e até mesmo osso. A violência além de extrema não é feita de forma cartunesca como os ótimos filmes feitos pelo Quentin Tarantino por exemplo, são feitas de formas realistas o que pode tornar essa jornada um pouco visceral demais, assim afastando a atenção da trama.

As atuações são cruciais para a realização do filme em meio a toda essa carnificina extrema. O medo e ansiedade de Gu-nam, o pânico de Kim Tae-won e a violência de Myeon-ga são transmitidos de forma magistral por cada um dos atores, a trama se complica mais ainda com a divisão dos acontecimentos, onde aos poucos vamos, de forma sutil, descobrindo junto com os personagens o que estava acontecendo.

  “Mar Sangrento” é um thriller super atraente, feito com uma força niilista incompreensível para muitos, com um final anti-climático, que casa muito bem com a jornada fútil do protagonista, nada é previsível e nada é o que realmente parece ser. Com aproximadamente duas horas e vinte minutos de filme, temos algumas cenas que são totalmente desnecessárias e não acrescentam nada na história, o tempo longo é o bastante para te levar a exaustão, a trama que não te leva pela mão, com personagens com motivações complexas e um festival de violência extrema muito bem executada faz desse uma das obras primas da violência contemporânea e eleva todo o grau de realismo que se pode esperar de uma cena de ação, um filme para poucos, mas que para esses poucos, tenho certeza que será muito bem apreciado.

Violência: 05/05

Nota Final: 05/05

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s