Os Lobos (1971) de Hideo Gosha

A decadência de um gênero talvez seja maior notada em meio ao seu ápice, no exato momento em que se não existem mais meios de se sustentar. Embora o Jitsuroku eiga (ou seria esse um filme Ninkyo eiga?) ainda tenha se mantido na ativa por mais seis ou sete anos após o lançamento de Os Lobos (alguns dizem que o real declínio do gênero veio muito depois, no início da década de 1980), é notável o perecimento da figura Yakuza nesse projeto de 1971, realizado pelo diretor Hideo Gosha.

A decaída da figura, do até então Yakuza galanteador, já não era mais a imagem que queria ser vista, já não fazia mais sentido depois de Guerra de Gangues em Okinawa (lançado no início do mesmo ano de Os Lobos) do revolucionário violento: Kinji Fukasaku. A reinvenção em meio à sua própria decadência é, em suma, algo que admiro.

Imagine um depauperamento da figura James Bond, com um 007 já não tão galanteador, já não cheio de charme, mas com uma aura mais séria, mais cruel, mais sujo, complexo, mais humano. Talvez esse seja o melhor exemplo, de descaracterização (que consigo pensar nesse momento) sobre esse advento. A alma ainda está lá, sua essência é mantida, de uma forma mais crua, menos sutil.

Estreando no gênero definitivo Yakuza, Hideo Gosha moldou (créditos também para Kei Tasaka, um grande colaborador em vários enredos do diretor) um universo crível, um vilarejo lamacento, como as ruas de Contos Brutais de Honra, mas que é o que se tem, é onde se vive, é onde a honra mora, pois é o lugar em que seu Oyabun reside.

Sinopse (a mesma que se encontra na caixa Cinema Yakuza): “Em 1929, para celebrar a ascensão do Imperador, centenas de mafiosos são libertados. Um desses homens percebe que a honra não faz mais parte do mundo da Yakuza, agora infestado por lobos.”

Em 1992, Clint Eastwood lançava o seu ‘faroeste crepuscular’, Os Imperdoáveis. Um filme que chegou para colocar o prego final no caixão do gênero. Uma desconstrução dos mitos do pistoleiros do velho oeste, que o próprio Eastwood, junto com Sergio Leone, ajudou a moldar. Claro que o faroeste tradicional vem de muito antes, mas leve em consideração apenas a sua reinvenção, já em meio a sua decadência, o faroeste spaghetti.

O crepúsculo de um gênero sempre serviu de catalisador para a desmitificação dos mitos criados ao longo dos anos. Os Lobos enxerga o crepúsculo do Ninkyo eiga sem perder sua própria essência enraizada no Jitsuroku eiga, uma junção, mesmo que inconsciente de ambos os estilos.

Preso depois de um confronto contra um clã rival, Seji Iwahashi (Tatsuya Nakadai em uma incrível atuação), o personagem chave da história, é liberado da prisão, e descobri que o seu clã se uniu com o clã rival. Essa união cria desavenças de ambos os lados, uma vez que não só Seji foi liberado, mas outros membros do clã rival se reuniram e se decepcionaram ao mesmo tempo com tal notícia.

Um conflito interno está formado, intrigas dentro de um mesmo grupo, confrontos entre membros de uma mesma gangue são proibidos, mas o amargor do passado ainda esta ali. Como esquecer os conflitos inacabados, que resultaram em seus determinados encarceramentos?

Enquanto uns morrem pela honra outros se dão conta da realização do desperdício da vida em prol de um líder tirano. Valeu a pena? É esse o caminho certo? Quantas vezes o tema já foi abordado pelo cinema samurai? São tantos os projetos do jidaigeki cruel. Do fim do período honrado, para a já previsão da decadência de um gênero ainda em meio a sua reinvenção. Um mérito visionário, que acredito ter sido tão inconsciente, quanto a atuação de Nakadai, com seus olhos sempre atentos, sempre tão cheios de expressões amargas. Uma atuação poderosa!

Em determinado momento, Shinji finalmente se dá conta da sujeira por debaixo dos panos. A plena consciência de que a vida passou, e tudo foi em vão. A cegueira em nome da honra, que no fim, não leva à lugar nenhum. Um dos meus momentos favoritos do filme, pois lágrimas sinceras são derramadas, em meio ao por do sol, o crepúsculo da vida de Shinji, um momento derradeiro.

Em meio a suas realizações, decisões são tomadas, confrontos sangrentos no dojo, contra tudo, contra todos, não importa os que sabem a verdade, não existe mais sentido. Um confronto na praia, quer um lugar melhor para se observar o fim do dia? Por fim, o lugar onde tudo termina, é exatamente o lugar, onde a decadência começou.

 

 

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