Crítica: Escrito na Lei (Old Stone) de Johnny Ma.

OldStone_homepage3

A cena que abre Old Stone é composta por uma captura ampla de árvores ao vento, balançando enquanto a natureza assopra de um lado e para o outro. Esse local será revisitado por nós algumas outras vezes durante o longa!

Longe desse contexto sereno, nas ruas movimentas de uma cidade chinesa, mas que poderia ser em qualquer outro lugar do mundo, um grupo de curiosos se aglomera. Sem delicadeza, a câmera nos mostra que o observado é um homem caído em meio ao asfalto, com sua moto destroçada ao seu lado, tendo convulsões, provavelmente devido à uma pancada extremamente forte na cabeça, a multidão de nada ajuda, apenas o observa, em quanto a vítima se contorce em meio a dor. A multidão nervosa começa a tentar a achar um responsável por essa tragédia, alguém precisaria ser julgando como culpado. É em meio à essa situação que encontramos ali, afastado do grupo, com um celular na mão, a única pessoa que parece fazer algo mediante a essa situação extrema, esse homem é Lao Shi (Chen Gang), o motorista de táxi que acertou o pobre rapaz estirado no chão, aguardando retorno da emergência à sabe-se lá quanto tempo. É bem sabido que não se deve mexer em um corpo acidentado antes do socorro chegar, porém, cansado de esperar a ambulância e temendo pela vida do pobre rapaz, Lao decide levar a vítima para o hospital por conta própria, mesmo sendo alertado de que tal atitude é contra lei e de que poderia agravar ainda mais a situação física do acidentado.

Na delegacia, encontramos um Lao Shi cansado, tendo já entregue a vítima para o hospital, já tendo pago as caríssimas taxas de entrada em seu cartão de débito, mesmo sem ter condições para tal ato e mesmo sem nenhum parentesco com o agora internado rapaz, que vem a se encontrar em coma devido ao acidente. Então nos é revelado através de seu depoimento de que o acidente foi causado por conta de um passageiro alcoolizado, que virou o volante em um momento de baderna dentro do Táxi de Lao. Suas palavras são o bastante para nos convencer, sem imagens ou testemunhas, de que este homem diz a verdade sobre o acidente, ele não teve culpa, mas parece não ser o suficiente, lhe cai toda a responsabilidade quanto as despesas médicas, ou seja, ele terá que cobrir todas as despesas enquanto o vitimizado se encontrar em coma. “O passageiro embriagado deixou a cena do crime em um outro Táxi” diz Lao aos policiais que parecem não o levar muito a sério, ocupados demais em suas próprias obrigações rotineiras.

Quando conhecemos sua casa e sua família, temos a certeza daquilo que já se era o esperado, Lao é um homem humilde. Ele mora nos interiores de uma creche, da qual sua esposa a usa como ganha pão. Sob o mesmo teto, conhecemos também a filha de Lao, com sua expressão de quem gostaria de mais atenção do super ocupado pai, que trabalha para sustentar o lar.

Daí em diante acompanhamos a vida desse homem comum, honesto, trabalhador, que tem sua vida virada ao avesso, através de um furacão de situações da qual não lhe é possível controlar. Testemunhamos sua luta contra o sistema judicial, sua tentativa para tentar encontrar o passageiro embriagado e também vamos vir a conhecer seus medos e suas imperfeições. Nos é dado a tarefa de acompanhar essa luta do homem honesto contra todos os demônios que habitam nossa sociedade atual, vítima de todo esse sistema falho, sedento por apontar um culpado.

Em determinado momento dessa jornada, a honestidade e a lindíssima consideração pelo outro, começam a ruir, toda a sua força de vontade é substituída pela indiferença. Lao é sugado para o seu próprio mundo de obrigações, cada vez mais passa a fazer parte da sociedade da qual ainda permanecia intocado. Uma vítima da sociedade, uma vítima da indiferença para com o próximo. Um homem comum, jogado como uma pedra antiga, em meio à um rio tempestuoso e composto por um profundo vazio.

A trilha sonora do filme vem em raras ocasiões, em sua maioria, ela compõe os momentos de incerteza mediante as ações não concretizadas de vingança, de ódio, em outras palavras ela é o que acompanha Lao nessa jornada sem volta para o fundo do poço onde somos todos pagantes e malfeitores. Mesmo que em raros momentos pareça recobrar seu bom senso, Lao imediatamente se vê praticamente imerso em meio a essa situação que se agrava a todo momento, o que o deixa sem muito o que fazer, se não concretizar o mau. Afundando-se cada vez mais nesse espiral social, não nos resta muito, a não ser testemunharmos mais uma vítima rotineira da sociedade.

Durante esse processo, volta e outra acompanhamos a alma serena de Lao, que são como lindas árvores em meio ao vento, que deixam-se se levar de um lado para o outro. Esse comparativo alcança o ápice em meio ao clímax, onde as árvores se tornam alheias ao vento que as rodeiam e se tornam estáticas.

Avaliação: ★★★★★ (Ótimo)
Duração: 1:21:08
Idioma: Chinês
Atores: Chen Gang, Nai An, Hongwei Wang, Zebin Zhang
Diretor: Johnny Ma

                                                       —————————————————

Chen Gang é alma desse mundo, o ator é incrivelmente natural (acho que esse é o maior elogio que se pode dar para um atuação), é apenas o segundo trabalho dele e já entrega a melhor atuação de 2017. Esse é também o primeiro do diretor Johnny Ma, um cineasta para se ficar de olho.

O filme está disponível para compra digital no Youtube em ótima qualidade, e o melhor, com legenda em português brasileiro! Dê o seu suporte ao cinema asiático!

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s