Dívida de Honra (2018) | Uma homenagem aos filmes de Yakuza dos anos 70 e 80.

É sempre arriscado revisitar um gênero descontinuado que uma vez foi um marco, observando os vários faroeste lançados nos últimos anos por exemplo, são poucos os que conseguem se sobressair em meio à sombra do gênero. É um peso de difícil manejo, claro que existem exceções, como a mistura de gêneros que deu certo em Rastros de Ódio (2015) do americano S. Craig Zahler, no atmosférico O Regresso (2015) de Alejandro G. Iñárritu que até rendeu um Oscar ao DiCaprio de melhor ator, na reimaginação do personagem Django em Django Livre (2012) e no gelado conto teatral de intrigas em Os Oito Odiados (2015), ambos do consagrado Quentin Tarantino. Mas o que dizer de um gênero mais restrito como os com temática Yakuza? Uma vez abraçado pelo público japonês, que frequentava cinemas acompanhando os confrontos entre honra e desonra da Ninkyo eiga, ou os balés violentos da Jitsuroku eiga? Um gênero que mal se sustenta no Japão, seu país de origem. Hoje são poucos os filmes com temática Yakuza a se destacarem, e são ainda menos os que trazem algo novo para o gênero. Até Takeshi Kitano, 71, o responsável por dar novo gás ao gênero no início dos anos 1990 recentemente anunciou que iria deixar de vez o gênero para trás. É nesse cenário que surge o cineasta dinamarquês Martin Zandvliet, de ‘Terra de Minas’ (2015) indicado ao premio de melhor filme estrangeiro no Oscar daquele ano.

Em 1974, o diretor Sydney Pollack, com o roteiro de Paul Schrader, dirigiu Operação Yakuza, produzido nos E.U.A., o filme hoje é visto como uma espécie de porta de entrada para os filmes da máfia japonesa, Chuva Negra de Ridley Scott é outro que atrai um olhar forasteiro para as produções do gênero, ambos contavam com o astro japonês consagrado nas produções Yakuza, Ken Takakura (Contos Brutais de Honra).

The Outsider (título original de Dívida de Honra), não conta com nenhum ator consagrado do gênero como chamariz, nenhum Takeshi Kitano, nem Jun Kunimura, muito menos um Riki Takeuchi, mas o rosto estampado nos cartazes é o do americano Jared Leto (Blade Runner 2049), em segundo plano sim, alguns rostos conhecidos, como Kippei Shîna (Outrage) Nao Ohmori (o impagável Ichi de Ichi: O Assassino, 2001) e Tadanobu Asano que assim como Ohmori, era um dos destaques da produção de 2001 Asano interpretou o insano Kakihara em Ichi: o Assassino do ainda mais insano Takashi Miike, ele também já possui inúmeras produções americanas no currículo como Thor: Ragnarok, Silêncio, Battleship e outros.

Não existe nada novo em The Outsider, não existe uma adição substancial ao já quase finado filme Yakuza, no lugar disso, existe a reutilização de todos elementos cabíveis em um único enredo contando com vários elementos já vistos inúmeras vezes. A vingança, a honra, a frieza, o tom sombrio e negro, um personagem inexpressivo utilizado como uma ferramenta letal, a violência sem pudor, está tudo junto e misturado no roteiro de John Linson e Andrew Baldwin, e talvez, esse seja o maior acerto desse novo trabalho da Netflix. Para o bem ou para o mal, trazer todos esses elementos para uma história absurda como a de The Outsider pode ser o que precisava para entreter os fãs do gênero. Estamos falando de quase 40 anos de história, existem dois caminhos possíveis para uma produção como essa, o novo que se baseia no velho, ou o velho que se baseia no novo, o meio termo seria incapaz de sustentar o absurdo.

A história se passa na Osaka pós segunda guerra, o americano Nick (Leto), conhece o mafioso Kiyoshi (Asano) na prisão, lá é criada uma dívida da qual título nacional se baseia, um tempo depois, com ambos em liberdade, Nick entra para a família (entenda como gangue) que Kiyoshi faz parte, lá ele conhece a honra e também o amor, através dos braços de Miyu (a intrigante Shioli Kutsuna), irmã de Kiyoshi. Daí em diante são intrigas pessoais, conflitos de interesses com outras famílias que atuam na área, e traições.

O personagem de Leto é quieto, inexpressivo do início ao fim, frio, calculista, centrado. O ator não deve em nada em expressão e comprometimento com o trabalho de atuação, basta puxar sua filmografia na memória para comprovar tal afirmação. Como Nick, era isso que lhe era pedido, era isso que lhe era necessário, um personagem misterioso, vazio, com praticamente nenhum contexto que ajuda o telespectador a se identificar, por que deveríamos? É um mundo de vilões, não existem mocinhos, é um universo de lobos.

O abuso dos clichês e do absurdo (Nick aprende usar uma katana do nada?) são jogados para o escanteio se encararmos tudo como uma grande homenagem. Em meio à esse tributo, originalidade não é o solicitado, mas sim os tons, as intrigas, os embates. Rapidamente após se juntar a Yakuza, a trama deixa de ser sobre um personagem e passa a ser sobre toda a facção, Nick se torna um extra. Ele ainda é o protagonista de certos acontecimentos que movem o enredo, mas nunca lhe é atribuído o papel de catalisador.

São constantes as referências aos filmes Yakuza dos anos 70/80, um louvor à brutalidade dos mafiosos, a Osaka dos anos 50 é fiel aos traços do que a cidade um dia já foi, porém Zandvliet se concentra mais nos arredores da região e nas filmagens internas. Assistir The Outsider, é ter em mente que trate-se de uma produção independente, um orçamento limitado. A violência é plástica, falsa, equivocada, extrema, igual aos filmes de Yakuza de Takashi Miike (pelo menos em seus trabalhos mais realistas). Os mercados escuros que tantas vezes vimos na história do gênero sendo sondados por membros de gangues são um exílio para o filme, servem de localidade para encontros externos, é o que lhe cabem no orçamento.

A peripécia que antecede os momentos finais é notada à quilômetros de distância, não é o foco, nem deveria ser. O inesperado se constrói em meio ao distanciamento do padrão dos filmes de gangsters da atualidade, a coragem de utilizar a fórmula consagrada distorce as ideias de muitos que não são familiarizados com as produções da Yakuza, estes irão construir ao longo do caminho uma visão deturpada do que Dívida de Honra realmente é. O que existe nos minutos finais, é um anticlímax, que serve também de tributo ao gênero que é muito mais, do que muitos não habituados a ele podem imaginar.

Avaliação: ★★★★ (Muito bom)
Duração: 2:00:00
Idioma: Japonês | Inglês
Elenco: Jared Leto, Tadanobu Asano, Kippei Shîna, Shioli Kutsuna, Emile Hirsch, Nao Ohmori
Diretor: Martin Zandvliet
*Filme disponível no Netflix.

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