Crítica: A Espada da Maldição [1966] | Uma anatomia da maldade

A sinopse: “Japão, 1860. No crepúsculo de uma Era, acompanhamos a jornada sangrenta de um samurai amoral que mata sem compaixão ou escrúpulos, dedicando sua vida ao mal.

Nas palavras de Morgan Freeman: “É mais divertido interpretar o vilão“, talvez Nakadai já pensasse assim nos longínquos anos 60 quando interpretou Ryunosuke em ‘A Espada da Maldição’, pois tamanha é a sua conexão com o personagem. Toda a maldade do perturbado personagem não precisa mais do que olhares do expressivo ator para demonstrar a quantidade de camadas que a maldade agrega dentro de um ser que dedica sua vida a crueldade. De que outra forma esse personagem criado nas páginas das novelas de Kaizan Nakazato poderia ser transportado para a tela, senão por um grande ator? Com um currículo que já contava com ótimas atuações, como na trilogia Guerra e Humanidade, Harakiri, Kwaidan, Sanjuro  o que mais esse homem pode alcançar como ator depois de todos esses clássicos? A resposta vem nesse trabalho de Kihachi Okamoto.

Lançado em 1966  no mesmo ano foram lançados O Rosto da Maldade e Cash Calls Hell, ambos com Nakadai no papel principal ‘A Espada da Maldição’ foi inicialmente planejado para ser uma trilogia, porém por motivos misteriosos (dinheiro talvez?), a trilogia nunca foi continuada, deixando tudo no vácuo logo após o fim desse que seria o primeiro filme da saga de Ryunosuke. Interessante notar que no início da mesma década, o diretor Kenji Misumi já havia iniciado uma trilogia baseada na mesma obra literária, chamada Satan’s Sword (Espada de Satã em tradução literária), trilogia que foi finaliza um ano depois de sua concepção (1960 – 1961).

Independente de qual tenham sido as motivações para a descontinuação da obra, o fim abrupto que deixa muitas coisas no vácuo acaba funcionando a favor do longa, criando um anticlímax muito bem estruturado com pontas soltas cabíveis na imaginação do espectador.

Hiroshi Murai que trabalhou na fotografia de tantos outros filmes do gênero, como Samurai Assassino (também de Okamoto), realiza um de seus trabalhos mais marcantes em preto e branco. É maravilhoso de se ver a batalha na floresta em torno da névoa, a batalha na neve onde Toshiro Mifune duela contra dezenas de inimigos e a sequência violenta no bordel, sequência essa que contem uma beleza estética de tirar o fôlego.

A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.” [Sigmund Freud – Trecho de entrevista concedida a George Sylvester Viereck em 1926.]

Nos primeiros minutos, a bondade é expressa pelo amor fraterno recíproco. A relação entre avô e sua sobrinha, o carinho, a delicadeza das palavras. O tom que transborda o bem estar sempre foi um fator cultural no Japão feudal, o falar é quase que um canto. Por trás, uma figura sombria se aproxima, eis que somos apresentados a Ryunosuke, que assassina o senhor sem qualquer motivo aparente. Na superfície, pelo menos, não existe um motivo concreto. Sua neta é poupada da presença de Ryunosuke, unicamente por ter se afastado para buscar água minutos antes. Após cometer tal atrocidade, Ryunosuke encontra mais uma vítima em potencial caminhando em sua direção, este se salva por pouco, não por misericórdia, mas sim por descaso. O mal não precisa de motivações aparentes para exercer sua função.

Ryunosuke é um samurai, logo ele deveria servir a esse propósito honrado, ao código, ao Bushido, ser fiel à sua cultura. Como pode um homem desse ciclo ser adepto à misantropia? Essa aversão não é apenas à natureza humana no geral, ela também é cultural. “O homem deve conhecer primeiro a sua alma, para então conhecer sua espada”, essa é a frase dita em determinado momento por Toranosuke Shimada (o sempre grande Toshirô Mifune), tal frase somada pela demonstração de habilidade e confiança contra os companheiros de Ryunosuke faz com que ele crie uma instabilidade. Esta que vem a ser recuperada uma vez que seu próprio ódio é restabelecido. O ódio é sua verdadeira essência, e só nos momentos de ira é que vemos o personagem sair da sua frieza constante.

Todos que rodeiam Ryunosuke são sugados para esse grande vórtice maligno, sua ‘mulher’ é o fruto de um assassinato, seu filho nada mais é do que um estorvo, seus companheiros nada mais são do que meras carnes ao vento (sejam os seus companheiro de clã ou seus comparsas assassinos da qual viria a se juntar no futuro), o irmão de uma de suas vítimas é tomado por um desejo cego de vingança. Todos são tragados para o mal caminho, porém, sempre lhes é dado o poder da decisão final, mesmo assim, o maligno é a escolha optada.

Quando todo o mal que fizera retorna para confronta-lo, seus olhos deixam de ser os únicos indícios de sua humanidade, aí que brilha a genialidade de Nakadai! Um desespero palpável. Sombras de suas vítimas, banhadas pela fúria de um adepto à maldade, vingativo contra o próprio sentido cultural. Em seguida uma violência fortíssima compõem os momentos finais da película, quando finalizado, só nos resta imaginar como teriam sido mais outros dois longas que seguiriam fazendo uma anatomia de toda a maldade que habita o interior daquele que é amaldiçoado pela sua própria natureza.

Avaliação: ★★★★★ (Obra-prima)
Duração: 1 hr 59 min (119 min)
Idioma: Japonês
Elenco: Tatsuya Nakadai, Michiyo Aratama, Yûzô Kayama, Toshirô Mifune
Diretor: Kihachi Okamoto
*Filme lançado em DVD no Brasil na caixa “CINEMA SAMURAI Vol. 2” (Versátil) em ótima cópia restaurada.

 

 

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