Crítica: A Vilã (The Villainess), trabalho técnico de altos e baixos com enredo esquecível.

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Um dos muitos filmes asiáticos esperados por mim em 2017, era exatamente a obra ultra violenta de Jung Byung-gil “A Vilã”. O filme serviria como uma espécie de redenção minha em relação ao trabalho de Byung-gil, uma vez que sua obra máxima até então (não que ele tenha muitos trabalhos), Confissão de Assassinato, não me agradou de praticamente nenhuma forma (apenas o aspecto técnico me agradou). Apesar do hype, não foi dessa vez que entrei em sintonia com o trabalho do diretor.
Exibido no ‘Festival do Rio 2017‘ com o nome válido de A Vilã, o filme se mostra extremamente fiel a todos excessos prometidos em seu anúncio: Muita ação, muita violência e uma Kim Ok-bin badass! Confesso que não assistia nenhum projeto com ela desde 2009 com o primoroso “Sede de Sangue” de Park Chan-wook. Outro rosto conhecido que não via já à algum tempo era o de Shin Ha-kyun, que também trabalhou em Sede de Sangue mas que talvez você o conheça como o protagonista mudo de Mr. Vingança! Já não bastasse o elenco animador, toda a premissa do filme já se mostrava interessante para saciar a sede de sangue de muitos espectadores e aficionados pelo cinema Sul Coreano, inclusive a minha!
O filme começa com uma sequência em primeira pessoa, bem no estilo Hardcore Henry, só que mais polida. É fácil se deixar levar nos primeiros minutos de The Villainess, onde Sook-hee (Kim Ok-bin) sai distribuindo pancadas em uma sequência bem conduzida e brutal, com acrobacias mirabolantes, lutas de facas, tiroteio e muito violência. Em determinado momento, a câmera decide deixar a visão em primeira pessoa e finalmente nos mostrar o estilo original criado pelo diretor para demonstrar toda a ação. Sem o uso de cortes rápidos, o diretor optou por usar ângulos fora do padrão enquanto a ação ocorre, além de fazer tudo parecer um longo plano-sequência, mas que na verdade são cenas filmadas de formas independes e corrigidas com o uso de CGI para parecer ininterrupto. Falando em computação gráfica, Jung Byung-gil parece ter feito um propósito de abusar de CGI em certas sequências, o que me causou muito desconforto enquanto as asistia, uma vez que detesto o excesso de CGI em filmes de ação.
A Vilã
Em certos momentos do longa, Byung-gil parece se desligar um pouco de tudo que construiu no início e decide apelar para algumas técnicas preguiçosas durante cenas de ação, com o uso de cortes rápidos e da terrível Shaky Cam, que inclusive, essa última, defendida por alguns entusiastas como uma “escolha de design”. Nenhuma palavra enfeitada nesse mundo pode tirar da minha cabeça que isso não passa de preguiça e falta de competência. O estranho é ver Jung Byung-gil alcançar um patamar de técnicas incríveis para se filmar algumas sequências de ação, como na batalha final dentro de um ônibus por exemplo, onde os ângulos são fenomenais e totalmente inusitados, fazendo por vezes me perguntar “Como diabos filmaram isso?” e em outras abusar do “Slow Motion CGI” padrão dos esquecíveis filmes de super heróis de hoje em dia e ainda descer mais o nível e fazer o uso da famigerada câmera balançando. The Villainess é sem dúvida nenhuma uma mistura técnica absurda, um turbilhão de êxtases e decepções.
Nesse ponto você talvez esteja se perguntando: “Mas e quanto ao enredo do filme?”. Pois é… e o enredo?… Acho que se esqueceram de fazer um e optaram por pegar uma história aleatória de alguma novela mexicana por aí…

Avaliação: ★ (Muito ruim)
Duração: 2 hr 9 min (129 min) 
Idioma: Coreano
Elenco:  Kim Ok-bin, Shin Ha-kyun, Jun Sung
Diretor: Jung Byung-gil

 

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Obrigado Blade Runner 2049!

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Qual o sentido de fazer uma carta de agradecimento para um grande diretor que não sabe da sua existência? ou seja, ele nunca vai ler mesmo… E ainda por cima, falar de um filme americano em um domínio reservado para se discutir o cinema asiático? Não faz o mínimo sentido!
Ainda assim, venho por meio de palavras avulsas, agradecer pelo novo “Blade Runner 2049”, sequência do clássico “Blade Runner” (Oh really?) de 1982 dirigido pelo – uma vez grande – diretor Ridley Scott, que na minha humilde opinião, fez o seu último grande filme à quase 10 anos atrás com o frenético e inteligente Rede de Mentiras (Body of Lies, 2008).
Blade Runner 2049 tinha tudo para ser uma péssima sequência, uma vez que Hollywood está em uma fase onde o puro caça níquel feito de CGI parece ter tomado conta, vide Marvel e afins. Meros produtos para o entretenimento do público, feitos visando simplesmente a arrecadação em massa. Objetivo esse, que claro, faz todo o sentido levando em conta o orçamento exorbitante para se concluir um produto desses. O novo Avengers por exemplo, tem um orçamento estimado de quase U$1 bilhão!
Dentro desse mercado, existe a necessidade de se fazer algo à altura dos efeitos especiais atuais, o que por si só, já faria do novo Blade Runner um filme caro. Com um orçamento grande, vem mais uma necessidade incluída, a de arrecadar o dobro para obter lucro, e como virou costume em Hollywood, fazer mais três ou quatro sequências! Dentro desse núcleo de arrecadação, existem riscos que os diretores/estúdios nunca correm. O de fazer um bom enredo! Tal risco, que em produções de 30 anos atrás não seria nada mais do que o esperado de um grande filme!
Graças a todos os envolvidos, muitos riscos foram tomados, e o diretor Denis Villeneuve resolveu submeter sua carreira em ascensão à uma obra com chances enormes de fracassos. Durante a pré-produção, cheguei a ler em algum lugar que tanto ele, quanto Ryan Gosling, já estavam cientes que o filme pudesse não agradar a massa, e consequentemente não ir bem em arrecadação, tornando o filme uma grande bomba para o estúdio. Tal comentário me fez torcer o nariz, exatamente por começar a imaginar o novo Blade Runner com muitas explosões e batalhas em computação gráfica. Um dos meus maiores medos eram ainda a reutilização de pontos seguros, como o novo Star Wars fez, um filme que poderia muito bem não existir, afinal a mitologia não foi expandida, apenas reaproveitando de fórmulas já estabelecidas pela franquia muitos anos atrás.
Felizmente na última semana eu descobri que o novo Blade Runner era muito mais do que um produto caça níquel da atual Hollywood, era em sua melhor forma, um filme. Lento, contemplativo, atmosférico e sem medo de se arriscar. Claro que ainda possui seus defeitos, como constantes flashbacks que existem simplesmente para relembrar o espectador de pontos chaves da trama… mas nada que fira a inteligência do público.
A obra ainda toma a difícil decisão de não explicar em palavras o turbilhão de sentimentos do personagem central “K” (ou “Joe” para os íntimos). Deixando a cargo do público entender por meio de gestos, reações e olhares o que o personagem sente.

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Em determinado momento, o personagem tem uma difícil decisão a ser tomada, e tudo que ele acredita é colocado à prova. Em um produto tradicional, teríamos um monólogo, ou uma explicação por meio de uma conversa aleatória. Como Blade Runner 2049 é muito mais do que um mero produto, toda a carga emocional é transmitida por imagens e pela hipnótica trilha sonora feita por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que emulam o trabalho atemporal feito por Vangelis para a obra original.
Fadado a falhar nas bilheterias mundiais, por não entregar o que o público de BlockBuster quer (explosões e CGI exagerado), o filme se tornou uma bomba para o estúdio mas que levou esse que vos escreve à pensar, que talvez, bem lá no fundo, ainda exista luz no fim do interminável túnel de faltas de ideias em Hollywood. Fadado ao esquecimento por conta no novo Star Wars que chega no fim do ano, fica aqui o meu agradecimento à todos envolvidos em Blade Runner 2049, por correrem o risco, e por trazerem não um mero produto, mas um ‘filme’!
Obrigado Ryan Gosling, obrigado Harrison Ford, obrigado Denis Villeneuve!
Obrigado Blade Runner 2049!