Crítica: Policial Violento (1989) -O início da desconstrução da violência.

Dispensadas as introduções, o ator Takeshi Kitano e seu trabalho de estreia como diretor: “Policial Violento”, marcou o início de uma carreira desconstrutiva das várias imagens da Yakuza (Sonatine, Outrage) ou das emoções humanas (Hana-Bi: Fogos de Artifícios, Dolls). Nesse seu primeiro longa de 1989, Kitano desmancha o ‘policial correto’ e o transforma em uma máquina destrutiva e explosiva, um Dirty Harry elevado a quinta potência.

Durante a investigação de alguns homicídios ligados à Yakuza, o policial Azuma (Kitano em interpretação de caras e bocas) descobre que um colega de trabalho está ligado ao tráfico de drogas. Desse ponto em diante, em conjunto com um policial novato que serve como contraponto  Azuma embarca em direção à essa teia de informações mundo abaixo. Vale tudo: Tortura, forjar evidências, perseguições impulsivas e tudo que não lhe é possível nos limiares da lei, da qual Azuma parece ter o pé esquerdo enraizado, para exterminar o mal pela raiz.

A violência é exposta de forma plástica, futilizada, como em quase todos os filmes de Kitano, uma opção estética de mostrar a relação do homem com atos violentos. O sangue falso que jorra para baixo e para cima são quase tão falsos quanto as interpretações operísticas dos atos em si.

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O conjunto dos planos sequências com os ângulos cortados, nada convencionais, que a princípio parecem um total equívoco, se mostram uma fusão de dois homens que parecem ter batido de frente durante todo o projeto. É o confronto entre Kitano e seu diretor de fotografia Yasushi Sasakibara. O impensável plano abstrato que corta a cabeça de um dos personagens enquanto este caminha demonstra a insensatez dessa realização dividida em duas camadas: A desconstrução e sua polifania!

De forma não intencional, ambos criaram um longa lotado de bipolaridade visual. Não o bastante, a trilha sonora debochada de Daisaku Kume que parece deslocada no início, passa a ganhar força no decorrer de nosso contato com esse personagem contraditório.

Da mais descontraída perseguição tola pelas ruas de Yokohama (ao som de uma música tão desconcertante quanto a situação que se desenrola) até a segunda metade acentuada pelo final sombrio, Policial Violento marca o início do genial diretor japonês que se mostra ainda mais belo na versão restaurada lançada na caixa Cinema Yakuza Vol. 3 (Versátil), um dos grandes lançamentos do ano em Home Video.

Avaliação: ★★★★★
Duração: 1 hr 43 min (103 min) 
Idioma: Japonês
Elenco: Takeshi Kitano, Maiko Kawakami, Makoto Ashikawa
Diretor: Takeshi Kitano

 

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Crítica: “Jailbreak” é ainda pior do que aparenta.

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Não se deixe levar pela introdução no estilo seriado de pouca qualidade (como os muitos presentes no Netflix) que abre “Jailbreak”, com instabilidade na edição e uma aparência de amador, o filme consegue ser muito pior do que aparenta em seus minutos iniciais.

A trama gira em torno de uma grupo de policiais que ficam encarregados de escoltar um prisioneiro, que atende pelo nome de PlayBoy, até uma prisão de segurança máxima. Lá, uma rebelião se inicia, arquitetada por um sindicato criminoso formado apenas por mulheres (da qual PlayBoy fazia parte — ele era o único homem) para dar cabo do futuro prisioneiro pelo seu recente delato. Logo, o grupo de policial fica preso no meio da rebelião, e o jeito é partir para a pancadaria para sair com vida.

É de praxe no gênero uma trama pobre e sem nenhum desenvolvimento, usada como desculpa para a ação acontecer. Mas e quando a ação não compensa toda essa bobeira? Afinal, até mesmo a babaquice tem que ter um limite!

Em certo momento o grupo tem acesso a um celular, rapidamente ligam para o chefe encarregado, ele não atende, estava no banho, paciência… O telefone então se torna inútil. Não se pode ligar para mais ninguém no mundo, tem que esperar o encarregado retornar a ligação. São besteiras como essas que nos fazem desligar o cérebro para se concentrar na pancadaria, mas o problema não acaba aí.

Em outro momento, cansada de esperar resultados de dentro da prisão, a arquiteta de toda a situação (que pagou para matar PlayBoy) decide invadir a prisão para dar cabo do traidor ela mesma, portando apenas uma katana, e na companhia de outras mulheres, todas vestidas de couro e salto alto, invadem a prisão, ainda em rebelião, com dois minutos. “É uma longa história” a líder responde quando indagada como invadiu a prisão deserta (talvez fosse domingo e todos os policiais da cidade se encontravam de folga). Claro que não podia faltar o close-up na ‘bunda’ de cada uma das moças enquanto elas desfilam em slow motion pelos corredores vazios do cenário mal feito da prisão, que se resume apenas nisso: corredores e mais corredores.

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Deixando a trama boba de lado, nos resta os aperitivos do gênero proposto pelo filme: artes marciais e comédia.

As lutas são compostas pelo único acerto do longa: o trabalho estável de câmara. O que deveria ser uma obrigação no gênero (como era nos anos 1970, 1980 e 1990) se tornaram um mérito em época de mediocridades como “The Equalizer” ou “A Colombiana”. A câmera emula o visto em Operação Invasão, longa que obviamente serviu de inspiração para JailBreak, há inclusive a câmera dinâmica que acompanha um corpo atirado ao chão, fazendo o movimento em 180° até que se tenha a imagem de ponta cabeça, retornando para a posição normal de forma a acompanhar o retorno do atingido para mais um round. Esse truque já foi emulado recentemente, em “Headshot“, mas tudo bem, JailBreak é uma produção da Camboja, país sem tradição no gênero.

Mesmo em meio ao bom trabalho de câmera, as coreografias podem parecer mais falsas do que o normal, os atores até que são bons, mas os movimentos são toscos com apenas alguns lapsos de bons momentos, faltou cortes mais precisos nos momentos de ataques mais complexos, parecia uma obrigação capturar tudo em plano sequência.

O diretor italiano Jimmy Henderson, ciente do absurdo da trama, resolveu colocar muito humor, sem saber que esse seria o prego final no caixão do longa. É de extremo mau gosto a comédia repetitiva de ‘caras e bocas’ forçadas durante todo o tempo por personagens concebidos como alívio cômico.

Já não basta toda a idiotice que se desenrola pelos seus 92 minutos, ainda sobra tempo para uma resolução patética e banal durante os créditos, não foi dessa vez que a Camboja produziu um bom filme de artes marciais, mas a culpa deve ser atribuída a incompetência de seu diretor, que já conta com mais dois filmes em pós produção, alguém pare esse homem!

Avaliação: ★ (Muito ruim)
Duração: 1 hr 32 min (92 min)
Idioma: Khmer
Elenco:  Jean-Paul Ly, Laurent Plancel, Celine Tran, Tharoth Sam
Diretor: Jimmy Henderson
-Filme disponível no Netflix

 

 

 

Crítica: Operação Invasão (The Raid: Redemption) – Um dos melhores filmes de ação da década.

“Operação Invasão” (The Raid no original) é uma daquelas pérolas que surgem de vez em quando, em algum lugar no mínimo inusitado, colocando a cena cinematográfica de tal local no mapa enquanto goza de tremendo sucesso mundo a fora. Inúmeros exemplos podem ser dados, como: Oldboy e Coreia do Sul, Ong Bak e Tailândia, etc. Em 2011, Gareth Evans (diretor galês) fez o mundo prestar a atenção no cenário da Indonésia quando lançou seu Operação Invasão no Festival Internacional de Toronto.

Voltando um pouco: Sem muita grana para tirar do papel um roteiro ambicioso, Gareth Evans decidiu filmar algo menor, e que se fizesse sucesso iria ajudar a financiar o seu projeto mais ambicioso (mais tarde esse roteiro se tornaria Operação Invasão 2). Então nasceu THE RAID: REDEMPTION, a ideia de se fazer um filme de artes marciais contidas em um único edifício veio exatamente das questões limitadas de orçamento, porém o filme usa isso ao seu favor, a obra é claustrofóbica. Não só isso; É frenético, violento e insano. Um rápido desvio de olhar pode fazer com que o espectador perca o próximo dilaceramento.

Durante uma hora e quarenta minutos, se tem pouco tempo para respirar no meio da trama rápida e diálogos bobos que servem de desculpa para a pancadaria rolar — A trama é simples: Grupo de elite da polícia invade um edifício dominado por marginais para extrair o líder da gangue, isso tudo em uma operação extraoficial, as coisas logo dão errado, e o objetivo se torna sair com vida do edifício.

O filme foi exibido em muitos países da América (fato considerável para uma produção da Indonésia) e por onde passou, criou-se uma legião de fãs. As coreografias vistas em tela são tão complexas quanto orgânicas. Diferente de muitos diretores atuais do gênero, Gareth sabe quando cortar uma cena durante as filmagens, sendo assim, ele não deixa para que tudo seja mascarado na hora da edição final, os cortes bem pensados durante a preparação da coreografia são parte da magia hipnotizante que são os confrontos ‘mano a mano’. Outra coisa maravilhosa a se levar em conta são as câmeras que focam em todos os movimentos que os atores fazem. Não tem aquele momento em que você tem que ficar tentando ‘adivinhar’ o que está acontecendo em tela devido aos cortes rápidos e a terrível câmera balançando — que tem se tornado cada vez mais comum no cinema americano.

Nada disso seria possível sem outro grande ponto forte, o elenco! Iko Uwais (o protagonista Rama) é um grande mestre do Silat, juntamente com Yayan Ruhian (Mad Dog)  — esse último, inclusive treinou vários agentes do serviço secreto da Indonésia — entregam movimentos rápidos, precisos e invejáveis. É deles também a coreografia das lutas. Até personagens menores são interpretados por lutadores experientes, Jaka, por exemplo, é interpretado por ‘Joe Taslim’ que foi um lutador profissional de judô.

A violência extrema torna todo o longo caminho até o topo do edifício mais satisfatório. Longe das limitações americanas, Gareth pode fazer o que quiser, de dilacerar corpos com um facão até chacinas com armas de fogo. As lutas corpo a corpo não funcionariam muito bem sem a violência, todo o contexto da tensão justifica os corpos derrubados. O longa ainda contém um raro exemplo de ‘herói que mata’, cada vez menos comuns nas produções de ação. Rama (Iko) quando encurralado não poupa seus inimigos, isso eleva todo o grau de realismo e deixa de lado o heroísmo barato de produções mais caricatas.

Existem duas versões da trilha sonora. Na versão original da Indonésia a trilha foi composta por músicos locais (muito boa por sinal), e para a versão internacional, Mike Shinoda (Linkin Park) e Joseph Trapanese (Tron: O Legado) foram recrutados para o cargo.
A versão internacional tem umas sacadas bem legais, tipo misturar dance durante a luta contra a ‘gangue da machete’ onde a iluminação se torna mais colorida e desordenada, dando a impressão de uma discoteca despovoada. Destaque também para a música que substitui o som do alarme em determinado momento do filme, fazendo uma fusão da trilha com o momento dramático, quase que um vídeo clipe.

Levando em consideração os enormes corredores com portas que levam para outros corredores ainda maiores, ou cômodos localizados em pontos sem sentido, podem fazer qualquer arquiteto atento se contorcer na cadeira. O fato é que essa planta é alterada em prol da trama, esse edifício fantasioso é parte de extrema importância, é o grande palco para todo o espetáculo de pancadaria.

A sensação que fica após o término, é a de pura adrenalina. É o típico filme de ação raiz desgarrado da própria trama, que a propósito, está em falta no mercado.

 

Avaliação: ★★★★★ (Ótimo)
Duração: 1 hr 41 min (101 min)
Idioma: Indonésio
Elenco: Iko Uwais, Joe Taslim, Donny Alamsyah, Yayan Ruhian, Pierre Gruno
Diretor: Gareth Evans

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O filme foi distribuído pela Sony no país. Se você é fã, é recomendado o blu-ray, pois além de extras a mais, a imagem/áudio são de cair o queixo, inclusive pode-se escolher entre a versão original da trilha sonora, ou a versão internacional! Ótimo!

Avaliação do Blu-ray: ★★★★★ (Ótimo)
Extras: Making-Of, Atrás das Cenas com Gareth Evans, Nos Bastidores da Música, Opção de Comentários do Diretor e mais.

“Resident Evil 7” une fórmula moderna e antiga.

Foram muitos os deslizes da Capcom em relação à Resident Evil, a franquia já passou pelo céu e pelo inferno (às vezes transitando entre os dois em um mesmo título). O fator ‘inovação’ parecia perdido depois de Resident Evil 6, um título que tentou agradar gregos e troianos, mas que falhou em capturar sua essência.

Podemos dividir a franquia em duas fórmulas básicas: A fórmula antiga, que prezava pelos quebra-cabeças mirabolantes e a dificuldade antiquada em um tempo pré Dark Souls (estamos falando dos anos 1990 afinal), ou seja, Survival Horror em sua forma mais pura (pouca munição, poucos saves, pouca noção de objetividade). E a fórmula mais recente — Os fãs da primeira fase já não suportavam mais anúncios de um tal Umbrella Corps (se bem que esse é difícil agradar qualquer um), que apela para essa fórmula com cara de anos 2000, a ação desenfreada! Popularizada por Resident Evil 5, mas que convenhamos, começou realmente (mesmo que de forma mais controlada) em Resident Evil 4.

Uma divisão já estava se formando em 2005 (com o lançamento do quarto capítulo) e se consolidou de vez com o lançamento do quinto título, em 2009. Já na década atual, a Capcom tratou de tentar achar um meio termo para agradar ambos os lados, eis que surge a salada RE 6 e os spin-offs RE: Revelations.

Os mais puristas, se entregaram ao excelente remake do primeiro capítulo e a pré-sequência “Resident Evil: Zero”. Os mais vidrados na segunda fórmula já se ligavam nas remasterizações de RE 4, 5 e 6. Claro que existem os adeptos à franquia que se deliciam com ambas as fórmulas, mas esses são mais raros.

É nesse cenário dividido que surge Resident Evil 7, que segunda a imprensa especializada é: “Uma volta as raízes”. De raiz, RE 7 bebe pouco, a Capcom finalmente acertou a mão nas misturas, como vem fazendo desde o início da década, e é isso que dá o tom a esse novo capítulo.

Se olharmos para a história da franquia como um todo, e compararmos com a situação do gênero Survival Horror, podemos fazer um comparativo da qual a franquia vem sempre acompanhando as tendências. P.T. (Silent Hills para os íntimos) já sinalizava o retorno da franquia Silent Hill para a sua forma clássica (mesmo não concretizado), utilizando uma câmera bem produtiva e atual, em primeira pessoa, como a do hit “Outlast”.

Diferente da trama habitual, RE 7 é um drama mais pessoal. O objetivo maior é sobreviver, e não resgatar a filha do presidente ou evitar a propagação de um novo vírus — não só sobreviver, como ir atrás da esposa Mia, desaparecida há três anos.

Sem investir em sustos fáceis, o game investe mais em atmosfera. Ganha muito com a câmera em primeira pessoa, é dinâmico e lento, com quebra-cabeças mas não exagerados (meio repetitivo às vezes), não te leva pela mão mas não é um poço escuro (existe o letreiro que anuncia o objetivo a ser seguido), é horror mas com pitadas de ação (nas lutas contra chefes). É Survival Horror antigo com cara de moderno.

É um vai e vem sem fim procurando uma forma de abrir uma porta trancada, os itens escassos estão de volta, não atire nos Bakers (família antagonista que parece saída d’O Massacre da Serra Elétrica de 1987), eles não são zumbis que morrem fácil, sequer são zumbis, são praticamente imunes aos danos que Ethan (personagem protagonista) pode causar, e ainda se regeneram.

“Cadê os zumbis?” os mais desavisados podem se perguntar, a resposta é ampla e resumida: “Resident Evil nunca foi sobre zumbis, é sobre vírus e armas biológicas” (daí o nome original Biohazard). RE 7 se despe da ação desenfreada abordada nos títulos lançados nessa década,  reutiliza parte da fórmula antiga com a roupagem mais comercial e moderna atual no gênero. Para uma real volta as raízes, seria necessário uma abordagem muito mais punitiva, mas esse é um risco que a Capcom não está em posição de assumir.

No fim, quando se está com a manete na mão, o passado não importa, o que vale é a experiência atual, e nisso, Resident Evil 7 cumpre muito bem o seu papel.

 

 

Guia Oriente Extremo | “O Caçador” de Na Hong-jin no SPACE.

O Caçador (2008) de Na Hong-jin

Muitos entusiastas do cinema sul coreano podem se perguntar o motivo do descaso (nos cinemas ou em Home Video) pelas distribuidoras do país com filmes asiáticos. A Europa Filmes fazia um ótimo trabalho lançando em DVD ótimos exemplos da potência sul coreano (e japonesa) contemporâneos. Hoje os grandes lançamentos asiáticos se resumem (em sua maioria) em clássicos absolutos ou nas ótimas caixas temáticas (da Versátil e da Obras-primas do Cinema). Enquanto aguardamos alguma distribuidora tomar partido, o pensamento é unânime: “Ainda bem existe a TV a cabo!”

No próximo dia 24, o SPACE irá transmitir “O Caçador”, primeiro longa de Na Hong-jin (Mar Sangrento, O Lamento). O horário, nada sugestivo, é às 02:40. Em um meio de semana (uma quinta-feira) pode parecer fora de mão, mas vale o esforço, ou ainda, vale gravar para ver no fim de semana. O Caçador é um daqueles filmes obrigatórios para qualquer aficionado com o cinema moderno sul coreano: violento, surpreendente e muito bem dirigido. Ainda é composto de ótimas atuações da dupla principal: Ha Jung-woo e Kim Yun Seok (ambos viriam trabalhar novamente com o diretor em Mar Sangrento), da estonteante Seo Yeong-hie (Bedevilled) e da pequena (mas já com grande presença) Kim Yoo-Jeong.

Título: O CAÇADOR (THE CHASER)
Avaliação do Oriente Extremo: ★★★★★ (Ótimo)
Hora de Início / Fim: 02:40 – 04:23
Onde: Space
Classificação Indicativa: 18 ANOS
Ano de Produção: 2008
País de Origem: COREIA DO SUL
Gênero: Suspense
Diretor: Na Hong Jin
Atores: Ha Jung-Woo, Kim Yun Seok
Sinopse: Um ex-policial de Seul que se tornou cafetão afronta problemas por causa do misterioso desaparecimento de algumas das prostitutas que ele agencia. Quando descobre que todas elas tinham sido contratadas por um mesmo cliente, perverso e sanguinário, decide tomar providências.

SPL: Kill Zone | Ação na medida certa compõem primeiro filme da série Sha Po Lang

Após os irregulares “Leaving Me, Loving You” e “The White Dragon”, ambos lançados em 2004, o diretor Wilson Yip decidiu (lá em 2005) abraçar de vez o gênero ação  — seus longas já flertavam com o gênero desde o início de sua carreira iniciada na segunda metade dos anos 1990. E que forma melhor de começar do que trazer grandes nomes do antes e do agora? Um dos grandes nomes do momento naquela época em Hong Kong, Donnie Yen (que vem ganhando notoriedade depois de ter participado do fraco Star Wars: Rogue One e da atrocidade xXx: Reativado), era o rosto certeiro para estampar os cartazes, carisma somado com habilidade em artes marciais, nada mais se espera de um ator de filmes de ação raiz. Não satisfeito, Yip ainda trouxe a lenda viva: Sammo Hung (Dragões para Sempre) para o papel de antagonista principal.

O filme marca o início não intencional da franquia de filmes SPL, que ganharia Spin-offs e uma continuação oficial dez anos depois. O nome original, Sha Po Lang, refere-se à três estrelas da astrologia chinesa, na qual cada uma delas representam destruição, conflito e ganância. Essas estrelas são representadas por Sammo Hung, Donnie Yen e Simon Yam. Nos E.U.A. (e em outros países de língua inglesa) o filme foi lançado com o desnecessário nome de Kill Zone. O mesmo ocorre no Brasil, que como já é de costume, tem um título que nada se assemelha com o original, nesse caso, ficou com o nome genérico de “Comando Final”.

Em 2003, Tony Jaa apareceu do nada com Ong Bak, veio à tona que outros países além da China poderiam fazer filmes com coreografias complexas e estonteantes. Durante uma entrevista para promover SPL, Donnie Yen revelou, que o filme se tratava de uma resposta ao hit tailandês, é como um “Hey, nós ainda sabemos fazer filmes de artes marciais com ótimas coreografias”, o mais feliz, é que eles realmente atingiram tal objetivo.

O início da trama é apresentada em um vai e vem no tempo, com os já típicos ‘letreiros’ exagerados compondo boa parte da tela para anunciar o elenco, e uma montagem no estilo telenovela. Felizmente o filme logo se desenrola, e esse prelúdio é abandonado, tem-se então: O policial e seu grupo de fiel seguidores, que caçam o bandido (Sammo Hung) e estão dispostos a coloca-lo atrás das grades, custe o que custar. Não é a sinopse mais original, mas quem se importa? Todo o resto é movido pela ação. A coreografia (feita por Donnie Yen) é o carro chefe do longa.

Mesmo que a ação mova a trama, ainda existem momentos de calmaria, Wilson Yip veio do drama para a ação desenfreada, essa bagagem mostra frutos, pois mesmo que bem dosadas, as cenas mais tranquilas ajudam a criar certa ânsia. Então quando a ação de fato começa, o contexto já está todo montado, aí é só sentar e apreciar a pancadaria.

Além do trio principal formado por Hung, Yen e Yam, SPL conta com a presença de Wu Jing (da franquia Wolf Warrior), como capanga de Hung. Se levarmos em conta apenas as lutas mano a mano, é notável uma dosagem, apenas duas grandes sequências compõem a trama, a primeira, em um beco, uma das mais impressionantes e famosas da filmografia de Donnie Yen, no confronto em questão, Yen vs Jing, é como assistir um combate real com armas brancas, o empenho dos atores é palpável, funcionando de forma espontânea. Foi um grande acerto filmar essa cena com os dois atores se enfrentando pra valer, por tanto, as reações capturadas pela câmera precisa de Yip são reais, claro que o confronto também alterna entre a coreografia precisa, mas é difícil distinguir, tamanha é a autenticidade dos movimentos. A segunda grande sequência, é o inevitável confronto final entre Donnie Yen e Sammo Hung, da qual não vale adiantar aqui.

Mesmo que não muito numerosas, as poucas cenas de ação são grandiosas, o mais é menos de fato se fez valer. As boas performances do trio principal proporciona momentos muito interessantes entre eles. Mesmo que Simon Yam perca a importância no decorrer da segunda metade, é justificável, uma vez que o ator não é um perito em artes marciais, coloca-lo para enfrentar Sammo seria pedir demais, cabe a ele manter o tom dramático e desesperado, um equilíbrio muito bem-vindo.

Avaliação: ★★★★ (Muito bom)
Duração: 1 hr 33 min (93 min)
Idioma: Cantonês
Elenco: Donnie Yen, Simon Yam, Sammo Kam-Bo Hung, Wu Jing, Kai Chi Liu
Diretor: Wilson Yip (Yip Wai Shun)

Dívida de Honra (2018) | Uma homenagem aos filmes de Yakuza dos anos 70 e 80.

É sempre arriscado revisitar um gênero descontinuado que uma vez foi um marco, observando os vários faroeste lançados nos últimos anos por exemplo, são poucos os que conseguem se sobressair em meio à sombra do gênero. É um peso de difícil manejo, claro que existem exceções, como a mistura de gêneros que deu certo em Rastros de Madade (2015) do americano S. Craig Zahler, no atmosférico O Regresso (2015) de Alejandro G. Iñárritu que até rendeu um Oscar ao DiCaprio de melhor ator, na reimaginação do personagem Django em Django Livre (2012) e no gelado conto teatral de intrigas em Os Oito Odiados (2015), ambos do consagrado Quentin Tarantino. Mas o que dizer de um gênero mais restrito como os com temática Yakuza? Uma vez abraçado pelo público japonês, que frequentava cinemas acompanhando os confrontos entre honra e desonra da Ninkyo eiga, ou os balés violentos da Jitsuroku eiga? Um gênero que mal se sustenta no Japão, seu país de origem. Hoje são poucos os filmes com temática Yakuza a se destacarem, e são ainda menos os que trazem algo novo para o gênero. Até Takeshi Kitano, 71, o responsável por dar novo gás ao gênero no início dos anos 1990 recentemente anunciou que iria deixar de vez o gênero para trás. É nesse cenário que surge o cineasta dinamarquês Martin Zandvliet, de ‘Terra de Minas’ (2015) indicado ao premio de melhor filme estrangeiro no Oscar daquele ano.

Em 1974, o diretor Sydney Pollack, com o roteiro de Paul Schrader, dirigiu Operação Yakuza, produzido nos E.U.A., o filme hoje é visto como uma espécie de porta de entrada para os filmes da máfia japonesa, Chuva Negra de Ridley Scott é outro que atrai um olhar forasteiro para as produções do gênero, ambos contavam com o astro japonês consagrado nas produções Yakuza, Ken Takakura (Contos Brutais de Honra).

The Outsider (título original de Dívida de Honra), não conta com nenhum ator consagrado do gênero como chamariz, nenhum Takeshi Kitano, nem Jun Kunimura, muito menos um Riki Takeuchi, mas o rosto estampado nos cartazes é o do americano Jared Leto (Blade Runner 2049), em segundo plano sim, alguns rostos conhecidos, como Kippei Shîna (Outrage) Nao Ohmori (o impagável Ichi de Ichi: O Assassino, 2001) e Tadanobu Asano que assim como Ohmori, era um dos destaques da produção de 2001 Asano interpretou o insano Kakihara em Ichi: o Assassino do ainda mais insano Takashi Miike, ele também já possui inúmeras produções americanas no currículo como Thor: Ragnarok, Silêncio, Battleship e outros.

Não existe nada novo em The Outsider, não existe uma adição substancial ao já quase finado filme Yakuza, no lugar disso, existe a reutilização de todos elementos cabíveis em um único enredo contando com vários elementos já vistos inúmeras vezes. A vingança, a honra, a frieza, o tom sombrio e negro, um personagem inexpressivo utilizado como uma ferramenta letal, a violência sem pudor, está tudo junto e misturado no roteiro de John Linson e Andrew Baldwin, e talvez, esse seja o maior acerto desse novo trabalho da Netflix. Para o bem ou para o mal, trazer todos esses elementos para uma história absurda como a de The Outsider pode ser o que precisava para entreter os fãs do gênero. Estamos falando de quase 40 anos de história, existem dois caminhos possíveis para uma produção como essa, o novo que se baseia no velho, ou o velho que se baseia no novo, o meio termo seria incapaz de sustentar o absurdo.

A história se passa na Osaka pós segunda guerra, o americano Nick (Leto), conhece o mafioso Kiyoshi (Asano) na prisão, lá é criada uma dívida da qual título nacional se baseia, um tempo depois, com ambos em liberdade, Nick entra para a família (entenda como gangue) que Kiyoshi faz parte, lá ele conhece a honra e também o amor, através dos braços de Miyu (a intrigante Shioli Kutsuna), irmã de Kiyoshi. Daí em diante são intrigas pessoais, conflitos de interesses com outras famílias que atuam na área, e traições.

O personagem de Leto é quieto, inexpressivo do início ao fim, frio, calculista, centrado. O ator não deve em nada em expressão e comprometimento com o trabalho de atuação, basta puxar sua filmografia na memória para comprovar tal afirmação. Como Nick, era isso que lhe era pedido, era isso que lhe era necessário, um personagem misterioso, vazio, com praticamente nenhum contexto que ajuda o telespectador a se identificar, por que deveríamos? É um mundo de vilões, não existem mocinhos, é um universo de lobos.

O abuso dos clichês e do absurdo (Nick aprende usar uma katana do nada?) são jogados para o escanteio se encararmos tudo como uma grande homenagem. Em meio à esse tributo, originalidade não é o solicitado, mas sim os tons, as intrigas, os embates. Rapidamente após se juntar a Yakuza, a trama deixa de ser sobre um personagem e passa a ser sobre toda a facção, Nick se torna um extra. Ele ainda é o protagonista de certos acontecimentos que movem o enredo, mas nunca lhe é atribuído o papel de catalisador.

São constantes as referências aos filmes Yakuza dos anos 70/80, um louvor à brutalidade dos mafiosos, a Osaka dos anos 50 é fiel aos traços do que a cidade um dia já foi, porém Zandvliet se concentra mais nos arredores da região e nas filmagens internas. Assistir The Outsider, é ter em mente que trate-se de uma produção independente, um orçamento limitado. A violência é plástica, falsa, equivocada, extrema, igual aos filmes de Yakuza de Takashi Miike (pelo menos em seus trabalhos mais realistas). Os mercados escuros que tantas vezes vimos na história do gênero sendo sondados por membros de gangues são um exílio para o filme, servem de localidade para encontros externos, é o que lhe cabem no orçamento.

A peripécia que antecede os momentos finais é notada à quilômetros de distância, não é o foco, nem deveria ser. O inesperado se constrói em meio ao distanciamento do padrão dos filmes de gangsters da atualidade, a coragem de utilizar a fórmula consagrada distorce as ideias de muitos que não são familiarizados com as produções da Yakuza, estes irão construir ao longo do caminho uma visão deturpada do que Dívida de Honra realmente é. O que existe nos minutos finais, é um anticlímax, que serve também de tributo ao gênero que é muito mais, do que muitos não habituados a ele podem imaginar.

Avaliação: ★★★★ (Muito bom)
Duração: 2:00:00
Idioma: Japonês | Inglês
Elenco: Jared Leto, Tadanobu Asano, Kippei Shîna, Shioli Kutsuna, Emile Hirsch, Nao Ohmori
Diretor: Martin Zandvliet
*Filme disponível no Netflix.

Crítica: Chasing the Dragon (2017) | Novo filme com Donnie Yen não convence.

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Anunciado como um drama criminal de ação, este novo projeto de Jing Wong (da terrível trilogia O Mestre dos Jogos) em parceria com o diretor de fotografia estreante na direção Jason Kwan (O Reino Proibido), tinha a difícil missão de recriar a Hong Kong dos anos 1970. Com um elenco de peso, reunindo os astros Donnie Yen (Ip Man) e Andy Lau (Conflitos Internos), o longa deveria contar a história de Crippled Ho (Yen), começando pela sua chegada à Hong Kong em 1974 como um imigrante ilegal, e posteriormente sua ascensão e queda como um dos maiores Lorde das Drogas da China.

Depois de uma breve introdução aos personagens adentrando-se ilegalmente nas províncias da cidade, admirando esse novo mundo e suas possibilidades, uma abertura anuncia o início da aventura, bem no estilo das séries de TV atuais, com música e imagens de fundo. É então que somos jogados já no meio da pancadaria nas ruas da cidade recriada em um pobre CGI, onde o núcleo dos acontecimentos, mesmo envolvendo toda uma gigantesca facção criminosa, parece rodear apenas em volta dos personagens centrais da trama. Filmado em estúdio com fundo verde, fica evidente logo no início, a falta de interação dos personagens com os cenários, que se resumem a salas apertadas e becos escuros e sujos dos subúrbios.

Um dos maiores pontos fracos do filme é a falta de comprometimento com o tempo abordado, os saltos temporais acontecem várias vezes, afinal o filme cobre um vasto tempo na vida de Ho. O tempo moldado pelos diretores não convence pois nunca é mostrado de forma clara e os traços da idade que permeiam o jovem Ho do início do longa (Yen tem 54 anos), são os mesmos da segunda metade, quando o filme avança muitos anos, mudando apenas o seu penteado e acrescentando um bigode estilo Escobar do Wagner Moura (de Narcos).

O maior deslize dos diretores ficam nos pontos chaves da trama — nos momentos derradeiros, aqueles que deveriam significar a virada de um ou outro personagem importante para a trama, são pobremente abordados, causando até certos risos desconcertantes perante a tragédia dos acontecimentos. Seja pela desconexa direção do irregular Jing Wong ou pelo risível CGI (presente durante todo o tempo na recriação da antiga Hong Kong e até mesmo nos veículos da época). O filme perde, e muito, em pontos básicos que um diretor mais competente poderia ter driblado sem grandes problemas.

Os primeiros quarenta e cinco minutos do longa são dedicados a construção do personagem central, quando finalmente chegamos ao momento em que esse se tornará o famoso Crippled Ho (Crippled em inglês significa aleijado), suas motivações são supérfluas, deixando de lado a tragédia anunciada minutos antes em um dos momentos de maior desperdício narrativo em memória recente. Novos personagens são introduzidos durante todo o tempo, e com a mesma velocidade em que são inseridos, são descartados, sempre de forma tola.

A violência é elevada para os padrões atuais das produções chinesas (o que não é muita coisa) e chega até a divertir em certas ocasiões, bem utilizada nos momentos de ação. Os atores se saem bem no que podem, infelizmente a edição pobre das cenas comprometem a experiência do telespectador diante das atuações. Inclusive, existem inúmeros erros de continuidade, algo inadmissível para uma produção desse nível.

Antes de Ho se tornar um aleijado, o enredo permite certos confrontos corpo a corpo, o que é o grande aperitivo das produções tradicionais estrelados por Donnie Yen, porém, desde o início da produção, foi dito que o personagem de Yen não seria um perito em artes marciais, o que fica claro nos confrontos enfrentados pelo personagem, que parece lutar como um leigo em certos momentos. A ação do filme é na verdade mais constante do que aparenta, porém mais uma vez a incompetência de Jing Wong se supera, não existe tensão alguma durante os confrontos, sejam de armas brancas ou nos tiroteios que compõem o clímax.

A Hong Kong plástica poderia ser facilmente deixada de lado se o projeto apresentasse um bom enredo, porém os dramas dos personagens são indiferentes. O império construído por Ho não é abordado, seu poder não é sentido, apenas demonstrado com roupas caras e uma casa de luxo.

Existe uma guerra fria entre as gangues, a polícia local e a polícia britânica que ocupavam as ruas da cidade. Esse contexto real é um dos principais pontos da trama que de forma fantasiosa usa a eclosão desse confronto para resolver os problemas dos personagens.

O desperdício de boas ideias continua com a falta de comprometimento em manter o tom dramático, na verdade esse é um problema que pode ser encontrado em boa parte da filmografia do bipolar diretor Jing Wong — talvez seu melhor trabalho seja Colour of the Truth, 2003, em parceria com Marco Mak, e ainda é um trabalho abaixo dos padrões do próprio Mak — Difícil não sentir pena de Jason Kwan, que sobre a tutela de Wong, estreou na direção.

O filme pode divertir aqueles que buscam um entretenimento pastelão do tipo impossível de se levar a sério, mas as marcas causadas pela inaptidão de manter um padrão pode afetar a experiência final até mesmo desse público em específico. Pelo menos o risível avião criado em computação gráfica que frequentemente sobrevoa a maquete da Hong Kong dos anos 70 consegue divertir.

Avaliação: ★★ (irregular)
Duração: 2h 8min
Idioma: Cantonês
Atores: Donnie Yen, Andy Lau, Philip Keung, Kent Cheng, Dongdong Xu, Niki Chow
Diretor: Jason Kwan, Jing Wong

Crítica: Escrito na Lei (Old Stone) de Johnny Ma.

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A cena que abre Old Stone é composta por uma captura ampla de árvores ao vento, balançando enquanto a natureza assopra de um lado e para o outro. Esse local será revisitado por nós algumas outras vezes durante o longa!

Longe desse contexto sereno, nas ruas movimentas de uma cidade chinesa, mas que poderia ser em qualquer outro lugar do mundo, um grupo de curiosos se aglomera. Sem delicadeza, a câmera nos mostra que o observado é um homem caído em meio ao asfalto, com sua moto destroçada ao seu lado, tendo convulsões, provavelmente devido à uma pancada extremamente forte na cabeça, a multidão de nada ajuda, apenas o observa, em quanto a vítima se contorce em meio a dor. A multidão nervosa começa a tentar a achar um responsável por essa tragédia, alguém precisaria ser julgando como culpado. É em meio à essa situação que encontramos ali, afastado do grupo, com um celular na mão, a única pessoa que parece fazer algo mediante a essa situação extrema, esse homem é Lao Shi (Chen Gang), o motorista de táxi que acertou o pobre rapaz estirado no chão, aguardando retorno da emergência à sabe-se lá quanto tempo. É bem sabido que não se deve mexer em um corpo acidentado antes do socorro chegar, porém, cansado de esperar a ambulância e temendo pela vida do pobre rapaz, Lao decide levar a vítima para o hospital por conta própria, mesmo sendo alertado de que tal atitude é contra lei e de que poderia agravar ainda mais a situação física do acidentado.

Na delegacia, encontramos um Lao Shi cansado, tendo já entregue a vítima para o hospital, já tendo pago as caríssimas taxas de entrada em seu cartão de débito, mesmo sem ter condições para tal ato e mesmo sem nenhum parentesco com o agora internado rapaz, que vem a se encontrar em coma devido ao acidente. Então nos é revelado através de seu depoimento de que o acidente foi causado por conta de um passageiro alcoolizado, que virou o volante em um momento de baderna dentro do Táxi de Lao. Suas palavras são o bastante para nos convencer, sem imagens ou testemunhas, de que este homem diz a verdade sobre o acidente, ele não teve culpa, mas parece não ser o suficiente, lhe cai toda a responsabilidade quanto as despesas médicas, ou seja, ele terá que cobrir todas as despesas enquanto o vitimizado se encontrar em coma. “O passageiro embriagado deixou a cena do crime em um outro Táxi” diz Lao aos policiais que parecem não o levar muito a sério, ocupados demais em suas próprias obrigações rotineiras.

Quando conhecemos sua casa e sua família, temos a certeza daquilo que já se era o esperado, Lao é um homem humilde. Ele mora nos interiores de uma creche, da qual sua esposa a usa como ganha pão. Sob o mesmo teto, conhecemos também a filha de Lao, com sua expressão de quem gostaria de mais atenção do super ocupado pai, que trabalha para sustentar o lar.

Daí em diante acompanhamos a vida desse homem comum, honesto, trabalhador, que tem sua vida virada ao avesso, através de um furacão de situações da qual não lhe é possível controlar. Testemunhamos sua luta contra o sistema judicial, sua tentativa para tentar encontrar o passageiro embriagado e também vamos vir a conhecer seus medos e suas imperfeições. Nos é dado a tarefa de acompanhar essa luta do homem honesto contra todos os demônios que habitam nossa sociedade atual, vítima de todo esse sistema falho, sedento por apontar um culpado.

Em determinado momento dessa jornada, a honestidade e a lindíssima consideração pelo outro, começam a ruir, toda a sua força de vontade é substituída pela indiferença. Lao é sugado para o seu próprio mundo de obrigações, cada vez mais passa a fazer parte da sociedade da qual ainda permanecia intocado. Uma vítima da sociedade, uma vítima da indiferença para com o próximo. Um homem comum, jogado como uma pedra antiga, em meio à um rio tempestuoso e composto por um profundo vazio.

A trilha sonora do filme vem em raras ocasiões, em sua maioria, ela compõe os momentos de incerteza mediante as ações não concretizadas de vingança, de ódio, em outras palavras ela é o que acompanha Lao nessa jornada sem volta para o fundo do poço onde somos todos pagantes e malfeitores. Mesmo que em raros momentos pareça recobrar seu bom senso, Lao imediatamente se vê praticamente imerso em meio a essa situação que se agrava a todo momento, o que o deixa sem muito o que fazer, se não concretizar o mau. Afundando-se cada vez mais nesse espiral social, não nos resta muito, a não ser testemunharmos mais uma vítima rotineira da sociedade.

Durante esse processo, volta e outra acompanhamos a alma serena de Lao, que são como lindas árvores em meio ao vento, que deixam-se se levar de um lado para o outro. Esse comparativo alcança o ápice em meio ao clímax, onde as árvores se tornam alheias ao vento que as rodeiam e se tornam estáticas.

Avaliação: ★★★★★ (Ótimo)
Duração: 1:21:08
Idioma: Chinês
Atores: Chen Gang, Nai An, Hongwei Wang, Zebin Zhang
Diretor: Johnny Ma

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Chen Gang é alma desse mundo, o ator é incrivelmente natural (acho que esse é o maior elogio que se pode dar para um atuação), é apenas o segundo trabalho dele e já entrega a melhor atuação de 2017. Esse é também o primeiro do diretor Johnny Ma, um cineasta para se ficar de olho.

O filme está disponível para compra digital no Youtube em ótima qualidade, e o melhor, com legenda em português brasileiro! Dê o seu suporte ao cinema asiático!

 

Oh 2018! O que tem para nos oferecer?

Em termos cinematográficos, 2018 não parece um ano muito promissor — no meu ponto de vista, claro — pois tudo indica que será um ano morno (com base nos projetos já anunciados). Infelizes como bem sabemos que somos, muitos filmes não devem chegar ao nosso circuito, então digo em relação e unicamente a ele. ‘Pantera Negra está em cartaz‘, eu não poderia ligar menos. ‘Deadpool 2 vem aí‘, impossível um desinteresse maior do que o meu… Então o que me resta?

Na verdade, o circuito americano, pelo menos aqueles filmes da qual tenho acesso na cidade onde vivo, já não me agradam à muito tempo (com poucas exceções). Comprar DVDs e Blu-rays já se tornou muito mais do que um simples hobbie, e sem medo de ser feliz, baixar aquele mkv 1080p de 8Gb ou 20Gb para acompanhar os filmes não lançados por aqui é uma rotina. Afinal, não é pirataria, pois não se tem o que piratear. E afinal, a própria imprensa especializada utiliza meios alternativos para se ter acesso à filmes e séries, afinal, como acham que se foram feitas reviews de The Handmaid’s Tale por exemplo?

Se lançarem em home video, comprarei, se exibirem, lá estarei eu. Como foi o caso de Invasão Zumbi (título sofrível para Train to Busan) que chegou a ser exibido por aqui. Se pudesse, levaria até meu cachorro para a sala, e pagaria o ingresso de bom grado para dar o meu suporte à filmes Coreanos (e de outras nacionalidades da Ásia ou Europa em geral) nas salas brasileiras.

Apesar do desinteresse pelo circuito americano, assisti 90% de todos filmes indicados ao Oscar (essa foi minha programação de carnaval). Filmes de fraco para péssimos. Isso só reforça o meu pensamento de que essa premiação é uma besteira sem sentido. Ainda assim, lá estarei eu, no dia 4 de março, sintonizado na TNT, vendo a cobertura completa e claro, a entrega das estatuetas. Quem sabe não rola uma gafe nova esse ano? E quem sabe não seja um nojo extremo como foi o Globo de Ouro, com aquela tal de #TimesUp. Não se enganem, eu não sou contra a causa, mas sim com a infestação excessiva do tema na premiação e dos longos discursos (Fora Oprah). Afinal, isso é um evento de premiação cinematográfica, então mantenham a campanha lá no tapete.

Até o momento em que escrevo, já se somaram 86 filmes visto nesse ano, um número relativamente alto se levarmos em conta que ainda estamos em fevereiro. São filmes italianos maravilhosos de Visconti, russos do incrível Tarkóvski ou Japoneses de Ozu. Não importa a nacionalidade, cinema bom existe em todo canto do mundo.

Minhas atenções finalmente se voltaram para lançamentos (tirando os do Oscar, estava vendo apenas filmes clássicos), e finalmente assisti um dos filmes mais esperados de 2017, que só vim ter acesso agora, em janeiro de 2018 (por que será?), com legendas em inglês — Deus abençoe Final Fantasy e Metal Gear Solid por ter me ensinado inglês na adolescência — o filme em questão é V.I.P. de Park Hoon-Jung, que dirigiu o ótimo ‘Novo Mundo’ em 2013. Estava particularmente ansioso para ver Jang Dong-gun em tela, gosto do cara em tela. O resultado não poderia ter sido mais decepcionante, enredo plastificado, bagunçado. Um filme que começa realista, e que se perde em devaneios, parecendo uma fábula criminal dividida em capítulos. Salvo apenas algumas sequência de ação muito bem conduzidas por Hoon-Jung. Minha consciência diz que a nota final é 2/5, a decepção foi tão grande que desisti de escrever mais aprofundadamente sobre o filme, uma lástima.

Ainda me restam mais lançamentos de 2017 para ver. Chasing the Dragon é o próximo, Donnie Yen é quase um Guilty Pleasure. Battleship Island, só de ter Hwang Jung-min no elenco, no mínimo já atiça minha curiosidade. A ficção de Lee Sa-rang “Real” e estou no aguardo do capítulo final da saga Yakuza de Takeshi Kitano: ‘Outrage Coda’.
Todos são de 2017, pendentes na minha watchlist. Agora é mediar o tempo, entre a leitura, o trabalho, os estudos e a sétima arte.

Estive pensando em iniciar outro blog, para filmes (e outras coisas) do mundo a fora. Já que não quero descaracterizar esse espaço para o conteúdo asiático. Assim poderei saciar o meu desejo de falar sobre Luchino Visconti, Andrei Tarkóvski. Mizoguchi e Ozu falarei por aqui mesmo, sem medo de os misturar com meus violentos Guilty Pleasures.

Olhando para frente, ainda não me encantei com nenhum futuro lançamento, talvez esteja muito no início para acusar 2018 de ser um ano fraco. Ainda estamos no mês 2 mas olhando para os próximos 4 meses, que já tem muitos e muitos títulos anunciados, a expectativa é nula. O bom é que sobra mais tempo para revisitar e conhecer novos clássicos do cinema do mundo a fora.