Oh 2018! O que tem para nos oferecer?

Em termos cinematográficos, 2018 não parece um ano muito promissor — no meu ponto de vista, claro — pois tudo indica que será um ano morno (com base nos projetos já anunciados). Infelizes como bem sabemos que somos, muitos filmes não devem chegar ao nosso circuito, então digo em relação e unicamente a ele. ‘Pantera Negra está em cartaz‘, eu não poderia ligar menos. ‘Deadpool 2 vem aí‘, impossível um desinteresse maior do que o meu… Então o que me resta?

Na verdade, o circuito americano, pelo menos aqueles filmes da qual tenho acesso na cidade onde vivo, já não me agradam à muito tempo (com poucas exceções). Comprar DVDs e Blu-rays já se tornou muito mais do que um simples hobbie, e sem medo de ser feliz, baixar aquele mkv 1080p de 8Gb ou 20Gb para acompanhar os filmes não lançados por aqui é uma rotina. Afinal, não é pirataria, pois não se tem o que piratear. E afinal, a própria imprensa especializada utiliza meios alternativos para se ter acesso à filmes e séries, afinal, como acham que se foram feitas reviews de The Handmaid’s Tale por exemplo?

Se lançarem em home video, comprarei, se exibirem, lá estarei eu. Como foi o caso de Invasão Zumbi (título sofrível para Train to Busan) que chegou a ser exibido por aqui. Se pudesse, levaria até meu cachorro para a sala, e pagaria o ingresso de bom grado para dar o meu suporte à filmes Coreanos (e de outras nacionalidades da Ásia ou Europa em geral) nas salas brasileiras.

Apesar do desinteresse pelo circuito americano, assisti 90% de todos filmes indicados ao Oscar (essa foi minha programação de carnaval). Filmes de fraco para péssimos. Isso só reforça o meu pensamento de que essa premiação é uma besteira sem sentido. Ainda assim, lá estarei eu, no dia 4 de março, sintonizado na TNT, vendo a cobertura completa e claro, a entrega das estatuetas. Quem sabe não rola uma gafe nova esse ano? E quem sabe não seja um nojo extremo como foi o Globo de Ouro, com aquela tal de #TimesUp. Não se enganem, eu não sou contra a causa, mas sim com a infestação excessiva do tema na premiação e dos longos discursos (Fora Oprah). Afinal, isso é um evento de premiação cinematográfica, então mantenham a campanha lá no tapete.

Até o momento em que escrevo, já se somaram 86 filmes visto nesse ano, um número relativamente alto se levarmos em conta que ainda estamos em fevereiro. São filmes italianos maravilhosos de Visconti, russos do incrível Tarkóvski ou Japoneses de Ozu. Não importa a nacionalidade, cinema bom existe em todo canto do mundo.

Minhas atenções finalmente se voltaram para lançamentos (tirando os do Oscar, estava vendo apenas filmes clássicos), e finalmente assisti um dos filmes mais esperados de 2017, que só vim ter acesso agora, em janeiro de 2018 (por que será?), com legendas em inglês — Deus abençoe Final Fantasy e Metal Gear Solid por ter me ensinado inglês na adolescência — o filme em questão é V.I.P. de Park Hoon-Jung, que dirigiu o ótimo ‘Novo Mundo’ em 2013. Estava particularmente ansioso para ver Jang Dong-gun em tela, gosto do cara em tela. O resultado não poderia ter sido mais decepcionante, enredo plastificado, bagunçado. Um filme que começa realista, e que se perde em devaneios, parecendo uma fábula criminal dividida em capítulos. Salvo apenas algumas sequência de ação muito bem conduzidas por Hoon-Jung. Minha consciência diz que a nota final é 2/5, a decepção foi tão grande que desisti de escrever mais aprofundadamente sobre o filme, uma lástima.

Ainda me restam mais lançamentos de 2017 para ver. Chasing the Dragon é o próximo, Donnie Yen é quase um Guilty Pleasure. Battleship Island, só de ter Hwang Jung-min no elenco, no mínimo já atiça minha curiosidade. A ficção de Lee Sa-rang “Real” e estou no aguardo do capítulo final da saga Yakuza de Takeshi Kitano: ‘Outrage Coda’.
Todos são de 2017, pendentes na minha watchlist. Agora é mediar o tempo, entre a leitura, o trabalho, os estudos e a sétima arte.

Estive pensando em iniciar outro blog, para filmes (e outras coisas) do mundo a fora. Já que não quero descaracterizar esse espaço para o conteúdo asiático. Assim poderei saciar o meu desejo de falar sobre Luchino Visconti, Andrei Tarkóvski. Mizoguchi e Ozu falarei por aqui mesmo, sem medo de os misturar com meus violentos Guilty Pleasures.

Olhando para frente, ainda não me encantei com nenhum futuro lançamento, talvez esteja muito no início para acusar 2018 de ser um ano fraco. Ainda estamos no mês 2 mas olhando para os próximos 4 meses, que já tem muitos e muitos títulos anunciados, a expectativa é nula. O bom é que sobra mais tempo para revisitar e conhecer novos clássicos do cinema do mundo a fora.

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Crítica: Oldboy (2003) de Park Chan-wook

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vingança
substantivo feminino
  1. 1.
    ato lesivo, praticado em nome próprio ou alheio, por alguém que foi real ou presumidamente ofendido ou lesado, em represália contra aquele que é ou seria o causador desse dano;
  2. 2.
    qualquer coisa que castiga; castigo, pena, punição.

 

Ria e o mundo rirá com você, chore e você chorará sozinho.’ Essa é apenas uma das muitas camadas agregadas n’A tragédia de Oh Dae-su (Choi Min-sik em grande atuação). A primeira vez que nos encontramos com ele, é em meio à muita confusão, em uma delegacia, preso por bebedeira. Um homem comum, famoso por cobiçar mulheres alheias, inconsequente por sua própria natureza. A vergonha alheia daqueles que o assistem se chocam com o humor dos cortes de uma situação absurda para outra. É da natureza humana rir de situações constrangedoras, quando essas não nos enquadram — também é da nossa natureza sentir pena daqueles que sofrem nas mãos dos opressores.

Quando essa situação se resolve, encontramos Oh Dae-su preso em um quarto, sozinho, indignado com a situação em que se encontra. Trancafiado sem saber o motivo, sem saber por quem, são momentos iniciais angustiantes. Desde então acompanhamos sua jornada entre quatro paredes, suas loucuras, reflexões e ambições. No canto, uma TV, essa seria sua professora, seu guia, sua informante e sua amante.

‘Se eu soubesse que teriam sido 15 anos, teria sido mais fácil?’

O exílio forma a autoavaliação, e subsequentemente, a paranoia. O Óxido nitroso vem por debaixo da porta, Oh Dae-su cai em um sono profundo, ao acordar, suas roupas foram trocadas, seu cabelo cortado, seu DNA extraído e seus ferimentos tratados. Não se preocupe, você não está aqui para morrer, essa é a mensagem que vem de fora. Na solidão da noite, é hora de cavar, a fuga é uma razão para se viver.

Através da sua informante, notícias do mundo exterior, sua esposa foi morta, vestígios de seu DNA encontrado na cena do crime, longe de sua realidade, agora é um criminoso procurado pelas autoridades. É hora de planejar a vingança!

Depois de 15 anos, com a mesma naturalidade de seu encarceramento, Oh Dae-su é solto. Não existe mais um lar para se retornar, agora nos resta acompanha-lo em sua jornada para descobrir o motivo, e consumar sua vingança contra o(s) indivíduo(s), isso é tudo que o restou, é para isso que treinou seu corpo e sua mente.

Agora um novo homem, deslocado nesse novo mundo, composto por novas gírias e com muitos novos detalhes para se admirar. Será que 15 anos de shadow boxing podem ser colocados em prática?

Em um restaurante, Dae-su ordena um polvo vivo, consumir uma vida o faria se sentir mais vivo, talvez parte de sua alma tenha se extinguido, se apagado naquele quarto, sua prisão. Na chef do restaurante encontra-se uma aliada, um conforto, sua informante (a TV) o ensinou que ela era uma importante chef de cozinha da região, seu nome é Mi-do (Kang Hye-jeong).

Juntos eles partem atrás de respostas, um longo caminho tortuoso, cheio de becos sem saídas. Quanto mais perto da verdade se chega, mais violento seu caminho se torna. São confrontos com câmeras precisas, com plano sequência e com muito realismo. A cinematografia esverdeada de Chung Chung-hoon (A Criada) é um espelho para a realidade percorrida pelo personagem, poucas vezes essa paleta é alterada, apenas durante momentos de respostas, flashbacks, lembranças de um passado distante.

Em seu clímax, Choi Min-sik é brilhante! Park Chan-wook segura a revelação final até o último segundo, sugando nossas expectativas. Uma obra de difícil análise, sem adiantar elementos importantes, quanto menos souber sobre o enredo, mais delicioso esse prato frio será digerido.

Uma tragédia grega, sem os deuses, mas com a seriedade. A fantasia ainda está lá, em seus detalhes, ou em sua arquitetura, como na sequência do corredor (ou do martelo), filmado em plano sequência, onde o diretor distorce o local em prol da circunstância.

Quando se sentar para acompanhar A Tragédia de Oh Dae-su tenha sempre em mente que: quer seja um grão de areia ou pedra, na água ambos afundam igualmente. 

O longa é baseado no mangá de mesmo nome, escrito por Garon Tsuchiya e ilustrada por Nobuaki Minegishi. É o quinto registro da grande carreira do cineasta sul coreano Park Chan-wook e o segundo da trilogia da vingança (Mr. Vingança e Lady Vingança são os demais). Vencedor do Grand Prix na edição de 2004 do Festival de Cannes. É também um dos filmes responsáveis por colocar o cinema sul coreano no mapa!

XX

Violência: 03/05

Nota Final: 05/05

 

Obs.: passe longe do remake americano!

“Heroic bloodshed” Muita violência e tiroteios no ponto fulminante do cinema de Hong Kong dos anos 1980.

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É fato inegável que o cinema ação tem inúmeras formas de ser retratado, isso já foi abordado e comprovado muitas vezes ao longa da história do cinema, e inclusive já discutido aqui. Porém, durante os anos 80, um diretor chinês super autoral começa fazer uma espécie de ação um tanto quanto diferente dos demais, e que viria a mudar o gênero em Hong Kong, e mais tarde, influenciaria até mesmo Hollywood. Foi em 1986 que o diretor “John Woo”, que até então já havia dirigido filmes de humor negro e de pancadarias tradicionais do kung fu, lança os filmes: “Heroes Shed no Tears” e o clássico criminal violento “A Better Tomorrow” (Alvo Duplo).
Em Heroes Shed no Tears (lançado por aqui apenas em VHS com o nome genérico de ‘No Coração do Perigo’) John Woo faz um exercício daquilo que viria a ser chamado de Heroic bloodshed.

O termo heroic blooshed foi criado pelo editor Rick Baker da revista Eastern Heroes em algum momento dos anos de 1980, especificando um estilo de filmes de diretores como John Woo e Ringo Lam. Baker definiu o gênero como “Filmes de ação feitos em Hong Kong com muitas armas, gangsters e muita violência”.

E com base nisso muitos diretores chineses se aventuraram em criar suas versões sangrentas desse lado violento de Hong Kong. Foi de lá que saiu, os hoje consagrados, diretores como: Johnnie To, Gordon Chan, Kirk Wong e muitos outros, além dos já citados, John Woo e Ringo Lam!

Se você está nesse blog chamado Oriente Extremo, tenho quase certeza que você gosta de uma boa ultra-violência asiática. Embora eu goste muito de trazer também o cinema de arte, esse lado sangrento não deixa de ser, com o perdão a reutilização da palavra, ARTE! Quer algo mais artístico do que ver Chow Yun-fat atirando com duas armas ao mesmo tempo, com litros de sangue falso jorrando aos montes, um ótimo trabalho de câmera (nunca pode faltar em um bom filme de ação) e até slow motion!?

Muitas promessas costumam ser feitas nos vários posts desse site, e para não perder o costume, prometo falar mais aprofundadamente sobre cada título aqui mencionado, e com base nas obras máximas do gênero, aqui vão, recomendações de grandes filmes desse maravilhoso gênero, que compôs a era de ouro do cinema de Hong Kong. E o melhor de tudo? Sem sangue CGI.

Alvo Duplo (1986) – John Woo

O filme que começou tudo, mais estiloso do que O Diabo Veste Prada! Tão influenciador, que os óculos usados pelo personagem Mark (Chow Yun-fat) esgotaram em Hong Kong no mês de lançamento, e ainda popularizou os sobretudos na capital chinesa, não o bastante, o estilo viria a ser utilizado pelos irmãos (irmãs?) Wachowski na trilogia Matrix!

O Matador (1989) – John Woo

Talvez o trabalho mais sangrento de John Woo. Um filme com forte apelo dramático, talvez uma grande homenagem as tragédias de Shakespeare (?). Chow Yun-fat vs Danny Lee, um embate final para se ficar na memória.

 

Perigo Extremo (1987) – Ringo Lam
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Mais uma vez, Chow Yun-fat vs Danny Lee. Dessa vez, ambos trocam de lado. Yun-fat o homem da lei e Lee o patife. Mais sobre o filme aqui

Mais recomendações:
À Flor da Pele (1992) – Ringo Lam
Alvo Duplo 2 (1987) – John Woo
Bala na Cabeça (1990) – John Woo
Hard Boiled (1992) – John Woo
Long Arm of the Law (1984) – Johnny Mak
Exiled (2006) – Johnnie To
Flaming Brothers (1987) – Joe Cheung
The Mission (1999) – Johnnie To
Beast Cops (1998) – Gordon Chan

Os Lobos (1971) de Hideo Gosha

A decadência de um gênero talvez seja maior notada em meio ao seu ápice, no exato momento em que se não existem mais meios de se sustentar. Embora o Jitsuroku eiga (ou seria esse um filme Ninkyo eiga?) ainda tenha se mantido na ativa por mais seis ou sete anos após o lançamento de Os Lobos (alguns dizem que o real declínio do gênero veio muito depois, no início da década de 1980), é notável o perecimento da figura Yakuza nesse projeto de 1971, realizado pelo diretor Hideo Gosha.

A decaída da figura, do até então Yakuza galanteador, já não era mais a imagem que queria ser vista, já não fazia mais sentido depois de Guerra de Gangues em Okinawa (lançado no início do mesmo ano de Os Lobos) do revolucionário violento: Kinji Fukasaku. A reinvenção em meio à sua própria decadência é, em suma, algo que admiro.

Imagine um depauperamento da figura James Bond, com um 007 já não tão galanteador, já não cheio de charme, mas com uma aura mais séria, mais cruel, mais sujo, complexo, mais humano. Talvez esse seja o melhor exemplo, de descaracterização (que consigo pensar nesse momento) sobre esse advento. A alma ainda está lá, sua essência é mantida, de uma forma mais crua, menos sutil.

Estreando no gênero definitivo Yakuza, Hideo Gosha moldou (créditos também para Kei Tasaka, um grande colaborador em vários enredos do diretor) um universo crível, um vilarejo lamacento, como as ruas de Contos Brutais de Honra, mas que é o que se tem, é onde se vive, é onde a honra mora, pois é o lugar em que seu Oyabun reside.

Sinopse (a mesma que se encontra na caixa Cinema Yakuza): “Em 1929, para celebrar a ascensão do Imperador, centenas de mafiosos são libertados. Um desses homens percebe que a honra não faz mais parte do mundo da Yakuza, agora infestado por lobos.”

Em 1992, Clint Eastwood lançava o seu ‘faroeste crepuscular’, Os Imperdoáveis. Um filme que chegou para colocar o prego final no caixão do gênero. Uma desconstrução dos mitos do pistoleiros do velho oeste, que o próprio Eastwood, junto com Sergio Leone, ajudou a moldar. Claro que o faroeste tradicional vem de muito antes, mas leve em consideração apenas a sua reinvenção, já em meio a sua decadência, o faroeste spaghetti.

O crepúsculo de um gênero sempre serviu de catalisador para a desmitificação dos mitos criados ao longo dos anos. Os Lobos enxerga o crepúsculo do Ninkyo eiga sem perder sua própria essência enraizada no Jitsuroku eiga, uma junção, mesmo que inconsciente de ambos os estilos.

Preso depois de um confronto contra um clã rival, Seji Iwahashi (Tatsuya Nakadai em uma incrível atuação), o personagem chave da história, é liberado da prisão, e descobri que o seu clã se uniu com o clã rival. Essa união cria desavenças de ambos os lados, uma vez que não só Seji foi liberado, mas outros membros do clã rival se reuniram e se decepcionaram ao mesmo tempo com tal notícia.

Um conflito interno está formado, intrigas dentro de um mesmo grupo, confrontos entre membros de uma mesma gangue são proibidos, mas o amargor do passado ainda esta ali. Como esquecer os conflitos inacabados, que resultaram em seus determinados encarceramentos?

Enquanto uns morrem pela honra outros se dão conta da realização do desperdício da vida em prol de um líder tirano. Valeu a pena? É esse o caminho certo? Quantas vezes o tema já foi abordado pelo cinema samurai? São tantos os projetos do jidaigeki cruel. Do fim do período honrado, para a já previsão da decadência de um gênero ainda em meio a sua reinvenção. Um mérito visionário, que acredito ter sido tão inconsciente, quanto a atuação de Nakadai, com seus olhos sempre atentos, sempre tão cheios de expressões amargas. Uma atuação poderosa!

Em determinado momento, Shinji finalmente se dá conta da sujeira por debaixo dos panos. A plena consciência de que a vida passou, e tudo foi em vão. A cegueira em nome da honra, que no fim, não leva à lugar nenhum. Um dos meus momentos favoritos do filme, pois lágrimas sinceras são derramadas, em meio ao por do sol, o crepúsculo da vida de Shinji, um momento derradeiro.

Em meio a suas realizações, decisões são tomadas, confrontos sangrentos no dojo, contra tudo, contra todos, não importa os que sabem a verdade, não existe mais sentido. Um confronto na praia, quer um lugar melhor para se observar o fim do dia? Por fim, o lugar onde tudo termina, é exatamente o lugar, onde a decadência começou.

 

 

Crítica: PARADOX [2017] de Wilson Yip

Atenção: Esse texto possui spoiler sobre o universo da franquia SPL!
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Dez anos atrás, em 2008, Wilson Yip lançava o primeiro Yip Man. Filme que rendeu mais duas continuações e que além de estar sendo planejado um quarto filme, ainda conta com um spin-off nos planos, ambos para serem lançados em 2018. Além da franquia Yip Man, Wilson Yip iniciou uma outra série de filmes de sucesso, um pouco menos conhecida por aqui, mas igualmente famosa em seu país de origem. A franquia em questão é: “SPL: Sha Po Lang“.

Iniciada em 2005 com o filme Kill Zone (título internacional) e lançado aqui no Brasil como ‘Comando Final’. A franquia contava com Donnie Yen (um recorrente na filmografia de Yip) e Sammo Hung (Dragões para Sempre), que também criou as coreografias. Em 2015, o diretor Cheang Pou-soi  (A Lenda do Rei Macaco) realizou a primeira sequência de Kill Zone, chamada de SPL II: A Time For Consequences (ainda sem previsão de lançamento para o Brasil), o elenco era composto por Tony Jaa (O Protetor), Wu Jing (Wolf Warrior), Simon Yam (Eleição: O Submundo do Poder), Zhang Jin (Yip Man 3) e Louis Koo (Drug War). Mesmo com a ausência de Sammo Hung e Donnie Yen, o filme foi um sucesso, devido ao seu elenco cheio de estrelas e um trabalho técnico sensacional!

Com base no sucesso, Wilson Yip retornou para a franquia como diretor/produtor e trouxe consigo ninguém menos do que o lendário Sammo Hung, dessa vez, para dirigir as cenas de ação. Embora a franquia obviamente compartilhe o mesmo universo, seus personagens não são relacionados de um filme para o outro. Paradox sequer gasta tempo fazendo menções à personagens importantes da franquia, funcionando mais como um “What If..?” do que de fato uma continuação.

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Inicialmente divulgado pela imprensa internacional, como o novo filme do ator Tony Jaa (como eu mesmo disse aqui), e que de fato, contém a participação de Tony Jaa (mas apenas como uma ‘participação especial’). Nos primeiros trailers de Paradox, muitas cenas do astro foram exibidas (cenas que estão no filme, não se preocupem), o que causou muita confusão quanto à seu tempo de tela nesse novo filme. Se o que queres é sentar, e ver um filme desse ator em específico, já lhe adianto, que ficará decepcionado, pois seu tempo é realmente curto e seu destaque, é mínimo.

Se em SPL II, Louis Koo tinha feito uma participação especial, e Jaa assumido um dos papeis principais, em Paradox ambos trocam os papeis, Koo é o personagem central da trama, juntamente com Wu Yue.

Paradox é mais modesto do que SPL II quanto à lutas contendo Wire fu (combinação das palavras wire work + kung fu), que são aquelas lutas onde os atores ficam presos à cabos para ajuda-los a lutar no ar ou dar pulos que desafiam a física. Na verdade, a palavra modesto pode definir essa nova entrada na franquia SPL. A começar pela trama simples de pai desesperado que tenta resgatar a filha, sequestrada por traficantes de órgãos…

Yip tentou trazer certa originalidade para a franquia (mesmo que SPL II também lide com sequestro…) e infelizmente, o roteiro de Paradox é uma bagunça do início ao fim, seja por personagens mal desenvolvidos, ou por decisões absurdas tomadas por certos personagens (algumas que até os levam a morte).

O trabalho de câmera é fenomenal, como de costume das produções do diretor. Sempre nos colocando por dentro de cada golpe desferido pelos personagens em cena e fazendo uso de ângulos alternados.

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Existe um padrão de violência seguido nas produções do gênero, porém, Paradox não é nem um pouco sangrento, nas cenas de confrontos de arma branca por exemplo, sempre tem um truque esperto para esconder o excesso. De fato, Paradox é modesto até mesmo em meio as suas cenas mais violentas e pesadas.

Existe uma tentativa de reviravoltas sombrias para quebrar a simplicidade do roteiro. Embora esses plot twists brinquem com a expectativa do espectador, ainda falta muito para causar o choque. Mesmo que o roteiro não seja importante em muitas produções de ação e sequer se levam a sério, obras de ação cujo o roteiro é construído para sustentar o longa independente da pancadaria e tiroteios, são muito mais arriscados. Falta o equilíbrio em Paradox, o equilíbrio da seriedade que a própria trama parece construir.

Ação e drama são sempre dois gêneros arriscados de se mesclar, nesse aspecto, Paradox deixa, mais uma vez, muito a desejar. Um desbalanceamento enorme entre a trama séria e os movimentos conflitantes dos personagens, que caminham para uma conclusão no mínimo obscura. Na busca do impacto dramático, o longa se perde entre os dois gêneros e no fim, não consegue ser excelente em nenhum dos dois, muito menos ser imparcial em meio a sua própria proposta. Para piorar, ainda existe o uso constante da coincidência como um elemento narrativo.

Apesar de possuir sequências de ação muito bem estruturadas, Paradox não consegue apresentar nada novo para a franquia, e é disparado o mais fraco da série de filmes SPL até o momento. Levando-se em consideração os últimos trabalhos do diretor, o filme consegue ser ainda mais decepcionante.

Violência: 01/05

Nota Final: 02/05

 

 

 

Perigo Extremo (City on Fire) de Ringo Lam.

Em determinado momento de City on Fire (mais uma vez, me recuso a chamar o filme pelo título nacional) Ko Chow (Chow Yun-fat) acaba de chegar em uma boate local, enquanto vai se adentrando no estabelecimento, sendo saldado por conhecidos, Ko Chow ainda se deixa levar ao bom rock chinês dos anos 80, um momento breve, mas que para os mais atentos, notarão a clara homenagem da ótima sequência em que Harvey Keitel dança ao som dos Rolling Stones no início de Caminhos Perigosos. Mas o som aqui em questão é a da cantora chinesa: ‘Maria Cordero’. A música é a mesma que abre esse texto e o motivo de estar ali presente, é o simples fato de que palavras nunca serão o suficientes para se expressar a nostalgia, mas a música, essa sim, instantaneamente nos transporta para essa época distante de nossas vidas.

Essa obra monumental de Ringo Lam, foi realizada, nos já longínquos anos 80, um filme tão repleto da mágica oitentista que você precisa experimentar por si só, ainda mais se você for um amante do cinema asiático, e sendo mais específico ainda, fã dos grandes filmes Heroic Bloosheds provenientes de Hong Kong.

City on Fire possui uma energia que é transbordante do início ao fim e já em seus minutos iniciais, somos instantaneamente transportados para a bela Hong Kong de 1987, onde presenciamos um assassinato em um mercado local. Rapidamente, o mercado está repleto de policiais, e o cenário sangrento já está armado para a trama se desenrolar em suas 1h 41min de duração. Chow Yun-fat não é nenhum rosto desconhecido dos fãs do cinema chinês, muito menos o astro Danny Lee, que juntamente com Yun-fat, estrelaram o clássico absoluto de John Woo: O Matador (1989).

Como sempre, sem entregar muito, a sinopse é a seguinte: “Um policial disfarçado se infiltra em uma gangue de ladrões que planejam  roubar uma joalheria.” Policial infiltrado? Roubo de joalheria? Isso não te lembra nada? Alguém? Claro! O filme de estreia do cineasta americano Quentin Tarantino, o ótimo, Cães de Aluguel. Foi em City on Fire que Tarantino se baseou para criar esse seu prestigiado trabalho… Mas isso é assunto para outra hora.
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Amizade é um constante tema abordado pelo gênero bloodshed, sempre de lados opostos, os improváveis amigos se veem em uma encruzilhada entre a vida e a morte. Esse clichê ainda permeia as produções atuais, porém sentar-se para ver City on Fire é levar em consideração que estamos falando de uma produção de trinta anos de idade. No quesito ação, o longa continua super atual, os tiroteios do diretor Ringo Lam são um grande balé de violência, algo que agrada e muito os fãs do gênero.


Obs.: Filme nunca lançado em DVD no Brasil.

Hideo Gosha: Rank de seus 13 primeiros trabalhos.

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Nessa reta final de 2017, prometi a mim mesmo que focaria em terminar os filmes da carreira do grande cineasta japonês Hideo Gosha. Porém, são muitos os trabalhos de 2017 que perdi, e muitos os trabalhos essenciais do cinema japonês que ainda estão na minha ‘watchlist’. Somando isso com grandes filmes do mundo inteiro, são inúmeros trabalhos para se serem levados em conta e muito pouco tempo para se dedicar a eles. Mesmo nas férias da faculdade, ainda tenho meu trabalho para dar conta, esse, que claro, ocupa boa parte dos meus dias.

Foram treze filmes, feitos entre 1964 e 1982 e faltam apenas mais dez filmes (1983 à 1992) para terminar essa filmografia, que até então, não parou de me surpreender.

Antes de dar sequência nos trabalhos de Gosha, resolvi revisitar alguns de seus trabalhos e refletir sobre sobre seus primeiros dezessete anos em atividade, no fim resolvi fazer um rank cobrindo seus treze trabalhos, de acordo com o meu gosto (é claro).

Nove desses trabalhos foram lançados pela Versátil. Sendo oito nas várias caixas ‘Cinema Samurai’ e um na caixa ‘Cinema Yakuza Vol.1’. Violent Streets, Onimasa, Cash Calls Hell e Bandits vs. Samurai Squadron ainda seguem inéditos no país. Em um futuro Cinema Samurai 7, quem sabe “Bandits vs. Samurai Squadron” não seja lançado? E ainda, quem sabe “Violent Streets” não componha a grade de um super aguardado Cinema Yakuza Vol 3? (Plase, Versátil!).

Futuramente gostaria de falar mais aprofundadamente sobre cada um desses trabalhos, mas por enquanto, espero que isso me baste!

01. Os Lobos
02. Tirania
03. Bandits vs. Samurai Squadron
04. A Espada do Mal
05. Hitokiri: O Castigo
06. Violent Streets
07. Cash Calls Hell
08. Três Samurais Fora da Lei
09. Caçadores das Trevas
10. Onimasa
11. Lobo Samurai I
12. Lobo Samurai II
13. O Segredo da Urna

Me senti um pouco incomodado por ver o chambara de fortes influências no wester Três Samurai Fora da Lei tão baixo na minha própria lista, e ainda mais de ver o melodrama Onimasa em 10º. Essas posições podem mudar em futuras assistidas… quem sabe?  Talvez boa parte do público não concorde com a posição alta do super tradicional Violent Streets, mas o meu amor pelos filmes de Yakuza é incondicional, e Noburo Ando como protagonista é algo que sempre almejei em ver. Além disso, ver um diretor como Mr. Gosha fazer algo que se pode comparar aos grandes trabalhos do Mr. Fukasaku, só me alegra ainda mais!

Tirania ainda é o meu favorito entre seus vários filmes de samurai, e Os Lobos (outro trabalho com tema Yakuza), ainda continua sendo o meu favorito de toda sua filmografia. Os Lobos não só continua um belíssimo filme Crepuscular sobre o gênero Yakuza, como também se sobrepõe como um lindo drama sobre honra e até mesmo sobre ‘encontrar o seu lugar no mundo’. O meu amor pel’Os Lobos parece mesmo ser algo que veio para ficar!

“Chasing the Dragon” trailer legendado do novo filme de Donnie Yen e Andy Lau.

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Um imigrante ilegal constrói um império corrupto na Hong Kong ocupada pelos britânicos em 1963, transformando-se no maior chefão das drogas da história de Hong Kong.

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Depois de sua recente passagem por Hollywood, tendo atuado em ‘xXx: Reativado’ e ‘Star Wars: Rogue One’. Donnie Yen (SPL: Killzone) parece estar seguindo os passos do astro Jackie Chan ultimamente, e não para de pular de um projeto para outro. O mais recente projeto do ator é Chasing the Dragon (ainda sem nome oficial no Brasil), filme onde ele interpretará o chefão das drogas Crippled Ho. Uma espécie de Pablo Escobar chinês que fez carreira nos anos 60/70. Não é a primeira encarnação para o cinema de Crippled Ho, uma vez que Poon Man-Kit filmou em 1991, o clássico “To Be Number One” (também sem título oficial no Brasil).
Donnie Yen ainda tem os vindouros Big Brother, Yip Man 4 e Sleeping Dogs em produção (esse último sendo uma adaptação do jogo de mesmo nome).

Os diretores de Chasing the Dragon são: Jing Wong, da trilogia ‘ O Mestre dos Jogos’ com Chow Yun-fat e o iniciante na direção Jason Kwan, que já vem trabalhando com cinematografia à algum tempo mas nunca havia assumido o cargo de diretor.

Claro que o filme não tem previsão de lançamento para o Brasil, já que aqui só existe espaço para os filmes americanos, mas a vasta e maravilhosa internet irá quebrar o nosso galho, já no mês que vem, em janeiro de 2018, quando o filme for lançado em blu-ray nos E.U.A. Claro que trarei minhas impressões do filme, assim que eu por as mãos nele!

“Hana-Bi: Fogos de Artifício” de Takeshi Kitano

Hana-Bi+Poster

Existe um espiral sem fim dentro do ser humano que se baseia naquilo que sentimos em relação aos outros ou ao mundo, esse oceano profundo e infinito de emoções é aquilo que nos faz ser quem somos. Independente de suas conquistas, tal vazio é parte constante do ser humano, um abismo na qual aprendemos a conviver, e por vezes, devido à grandes decepções proporcionadas pelo nosso cotidiano, falta de oportunidades ou o acaso sombrio que permeia a morte, tal abismo passa a nos consumir.

Por várias vezes na história do cinema, esse sentimento foi abordado, criando obras depressivas que transbordavam beleza. Yasujirō Ozu por exemplo (para citar apenas um nome), tinha a capacidade de olhar para tal escuridão do cotidiano e recriar, através da sétima arte, histórias incríveis com personagens que estão em constante contato com esse espiral sem fim.

Takeshi Kitano já havia se integrado no mundo cinematográfico 8 anos antes desse seu trabalho, com ‘Policial Violento’ em 1989 e já contava com uma versátil filmografia, passeando pelo experimental (A Scene at the Sea), pela comédia (Getting Any? ), pelo drama (Kids Return ) e claro, pelos filmes de Yakuza (Boiling Point e Sonatine). Mas foi somente em 1997, com Hana-Bi: Fogos de Artifício que Kitano viria a ter seu trabalho reconhecido mundialmente, condecoração que levou seus antigos trabalhos a serem reavaliados pelos críticos. Parte disso, se deve ao fato de Kitano ter ganho o Leão de Ouro (em italiano: Leone d’Oro), que é o galardão máximo concedido pelo júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza (Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica), pelo seu trabalho em Hana-Bi, onde ele escreveu, dirigiu e atuou.

“Depois de passar por um trauma e ver seu melhor amigo parar na cadeira de rodas, o policial Nishi decide deixar a força para se concentrar em sua esposa, que possui uma doença em estado terminal.” Até mesmo essa sinopse simples já traz uma das grandes sacadas de Kitano, o minimalismo. Hana-Bi conta com ideias subjetivas que sempre estiverem presentes na sua carreira cheia de registros regressistas.

Mesmo não sendo tão abstrato quanto ‘A Scene at the Sea’, Hana-Bi esbanja um sentimento etéreo, com um olhar impalpável sobre as relações de Nishi, com uma câmera de pura leveza que vive em contraste com a violência. E mesmo em seus momentos mais extremos, Hana-Bi consegue a proeza de permanecer imutável.

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Durante essa jornada finita de decisões feitas no ápice desse furacão composto de sentimentos depressivos, Hana-Bi abre espaço para outros dois personagens brilharem. Horibe (Ren Osugi) que não precisa expressar por meio de palavras toda sua solidão. Basta a simples imagem de suas pinturas, e tudo é exposto de forma mais profunda do que qualquer palavra poderia expor. As pinturas que compõe os sentimentos é como a arte dentro da arte. Um dos raros casos em que um diretor faz uso tão estável da arcaica ‘terceira arte‘. Se Horibe é o primeiro de dois personagens que brilham além de Nishi, o segundo é a música de Joe Hisaishi. A sintonia dos trabalhos dos dois (Kitano+Hisaishi) é quase sobrenatural.

Talvez palavras não sejam o bastante para expor o impacto que Hana-Bi me causou. Esse contato com a arte pode abrir os olhos de muitos para a pintura, para a música e para o próprio cinema de arte! O silêncio também é uma característica que compõe essa jornada morro abaixo na estrada da vida, daqueles desafortunados o bastante para se encontrar de frente com o abismo que habita os nossos corações.

Haba-Bi foi lançado no Brasil pela Versátil em DVD. Uma pena não ter sido lançada em blu-ray… Mas acho que estou reclamando de barriga cheia, uma vez que a versão lançada em DVD está em uma boa cópia restaurada (Ainda assim queria o blu-ray)…