“Heroic bloodshed” Muita violência e tiroteios no ponto fulminante do cinema de Hong Kong dos anos 1980.

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É fato inegável que o cinema ação tem inúmeras formas de ser retratado, isso já foi abordado e comprovado muitas vezes ao longa da história do cinema, e inclusive já discutido aqui. Porém, durante os anos 80, um diretor chinês super autoral começa fazer uma espécie de ação um tanto quanto diferente dos demais, e que viria a mudar o gênero em Hong Kong, e mais tarde, influenciaria até mesmo Hollywood. Foi em 1986 que o diretor “John Woo”, que até então já havia dirigido filmes de humor negro e de pancadarias tradicionais do kung fu, lança os filmes: “Heroes Shed no Tears” e o clássico criminal violento “A Better Tomorrow” (Alvo Duplo).
Em Heroes Shed no Tears (lançado por aqui apenas em VHS com o nome genérico de ‘No Coração do Perigo’) John Woo faz um exercício daquilo que viria a ser chamado de Heroic bloodshed.

O termo heroic blooshed foi criado pelo editor Rick Baker da revista Eastern Heroes em algum momento dos anos de 1980, especificando um estilo de filmes de diretores como John Woo e Ringo Lam. Baker definiu o gênero como “Filmes de ação feitos em Hong Kong com muitas armas, gangsters e muita violência”.

E com base nisso muitos diretores chineses se aventuraram em criar suas versões sangrentas desse lado violento de Hong Kong. Foi de lá que saiu, os hoje consagrados, diretores como: Johnnie To, Gordon Chan, Kirk Wong e muitos outros, além dos já citados, John Woo e Ringo Lam!

Se você está nesse blog chamado Oriente Extremo, tenho quase certeza que você gosta de uma boa ultra-violência asiática. Embora eu goste muito de trazer também o cinema de arte, esse lado sangrento não deixa de ser, com o perdão a reutilização da palavra, ARTE! Quer algo mais artístico do que ver Chow Yun-fat atirando com duas armas ao mesmo tempo, com litros de sangue falso jorrando aos montes, um ótimo trabalho de câmera (nunca pode faltar em um bom filme de ação) e até slow motion!?

Muitas promessas costumam ser feitas nos vários posts desse site, e para não perder o costume, prometo falar mais aprofundadamente sobre cada título aqui mencionado, e com base nas obras máximas do gênero, aqui vão, recomendações de grandes filmes desse maravilhoso gênero, que compôs a era de ouro do cinema de Hong Kong. E o melhor de tudo? Sem sangue CGI.

Alvo Duplo (1986) – John Woo

O filme que começou tudo, mais estiloso do que O Diabo Veste Prada! Tão influenciador, que os óculos usados pelo personagem Mark (Chow Yun-fat) esgotaram em Hong Kong no mês de lançamento, e ainda popularizou os sobretudos na capital chinesa, não o bastante, o estilo viria a ser utilizado pelos irmãos (irmãs?) Wachowski na trilogia Matrix!

O Matador (1989) – John Woo

Talvez o trabalho mais sangrento de John Woo. Um filme com forte apelo dramático, talvez uma grande homenagem as tragédias de Shakespeare (?). Chow Yun-fat vs Danny Lee, um embate final para se ficar na memória.

 

Perigo Extremo (1987) – Ringo Lam
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Mais uma vez, Chow Yun-fat vs Danny Lee. Dessa vez, ambos trocam de lado. Yun-fat o homem da lei e Lee o patife. Mais sobre o filme aqui

Mais recomendações:
À Flor da Pele (1992) – Ringo Lam
Alvo Duplo 2 (1987) – John Woo
Bala na Cabeça (1990) – John Woo
Hard Boiled (1992) – John Woo
Long Arm of the Law (1984) – Johnny Mak
Exiled (2006) – Johnnie To
Flaming Brothers (1987) – Joe Cheung
The Mission (1999) – Johnnie To
Beast Cops (1998) – Gordon Chan

Os Lobos (1971) de Hideo Gosha

A decadência de um gênero talvez seja maior notada em meio ao seu ápice, no exato momento em que se não existem mais meios de se sustentar. Embora o Jitsuroku eiga (ou seria esse um filme Ninkyo eiga?) ainda tenha se mantido na ativa por mais seis ou sete anos após o lançamento de Os Lobos (alguns dizem que o real declínio do gênero veio muito depois, no início da década de 1980), é notável o perecimento da figura Yakuza nesse projeto de 1971, realizado pelo diretor Hideo Gosha.

A decaída da figura, do até então Yakuza galanteador, já não era mais a imagem que queria ser vista, já não fazia mais sentido depois de Guerra de Gangues em Okinawa (lançado no início do mesmo ano de Os Lobos) do revolucionário violento: Kinji Fukasaku. A reinvenção em meio à sua própria decadência é, em suma, algo que admiro.

Imagine um depauperamento da figura James Bond, com um 007 já não tão galanteador, já não cheio de charme, mas com uma aura mais séria, mais cruel, mais sujo, complexo, mais humano. Talvez esse seja o melhor exemplo, de descaracterização (que consigo pensar nesse momento) sobre esse advento. A alma ainda está lá, sua essência é mantida, de uma forma mais crua, menos sutil.

Estreando no gênero definitivo Yakuza, Hideo Gosha moldou (créditos também para Kei Tasaka, um grande colaborador em vários enredos do diretor) um universo crível, um vilarejo lamacento, como as ruas de Contos Brutais de Honra, mas que é o que se tem, é onde se vive, é onde a honra mora, pois é o lugar em que seu Oyabun reside.

Sinopse (a mesma que se encontra na caixa Cinema Yakuza): “Em 1929, para celebrar a ascensão do Imperador, centenas de mafiosos são libertados. Um desses homens percebe que a honra não faz mais parte do mundo da Yakuza, agora infestado por lobos.”

Em 1992, Clint Eastwood lançava o seu ‘faroeste crepuscular’, Os Imperdoáveis. Um filme que chegou para colocar o prego final no caixão do gênero. Uma desconstrução dos mitos do pistoleiros do velho oeste, que o próprio Eastwood, junto com Sergio Leone, ajudou a moldar. Claro que o faroeste tradicional vem de muito antes, mas leve em consideração apenas a sua reinvenção, já em meio a sua decadência, o faroeste spaghetti.

O crepúsculo de um gênero sempre serviu de catalisador para a desmitificação dos mitos criados ao longo dos anos. Os Lobos enxerga o crepúsculo do Ninkyo eiga sem perder sua própria essência enraizada no Jitsuroku eiga, uma junção, mesmo que inconsciente de ambos os estilos.

Preso depois de um confronto contra um clã rival, Seji Iwahashi (Tatsuya Nakadai em uma incrível atuação), o personagem chave da história, é liberado da prisão, e descobri que o seu clã se uniu com o clã rival. Essa união cria desavenças de ambos os lados, uma vez que não só Seji foi liberado, mas outros membros do clã rival se reuniram e se decepcionaram ao mesmo tempo com tal notícia.

Um conflito interno está formado, intrigas dentro de um mesmo grupo, confrontos entre membros de uma mesma gangue são proibidos, mas o amargor do passado ainda esta ali. Como esquecer os conflitos inacabados, que resultaram em seus determinados encarceramentos?

Enquanto uns morrem pela honra outros se dão conta da realização do desperdício da vida em prol de um líder tirano. Valeu a pena? É esse o caminho certo? Quantas vezes o tema já foi abordado pelo cinema samurai? São tantos os projetos do jidaigeki cruel. Do fim do período honrado, para a já previsão da decadência de um gênero ainda em meio a sua reinvenção. Um mérito visionário, que acredito ter sido tão inconsciente, quanto a atuação de Nakadai, com seus olhos sempre atentos, sempre tão cheios de expressões amargas. Uma atuação poderosa!

Em determinado momento, Shinji finalmente se dá conta da sujeira por debaixo dos panos. A plena consciência de que a vida passou, e tudo foi em vão. A cegueira em nome da honra, que no fim, não leva à lugar nenhum. Um dos meus momentos favoritos do filme, pois lágrimas sinceras são derramadas, em meio ao por do sol, o crepúsculo da vida de Shinji, um momento derradeiro.

Em meio a suas realizações, decisões são tomadas, confrontos sangrentos no dojo, contra tudo, contra todos, não importa os que sabem a verdade, não existe mais sentido. Um confronto na praia, quer um lugar melhor para se observar o fim do dia? Por fim, o lugar onde tudo termina, é exatamente o lugar, onde a decadência começou.

 

 

Crítica: PARADOX [2017] de Wilson Yip

Atenção: Esse texto possui spoiler sobre o universo da franquia SPL!
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Dez anos atrás, em 2008, Wilson Yip lançava o primeiro Yip Man. Filme que rendeu mais duas continuações e que além de estar sendo planejado um quarto filme, ainda conta com um spin-off nos planos, ambos para serem lançados em 2018. Além da franquia Yip Man, Wilson Yip iniciou uma outra série de filmes de sucesso, um pouco menos conhecida por aqui, mas igualmente famosa em seu país de origem. A franquia em questão é: “SPL: Sha Po Lang“.

Iniciada em 2005 com o filme Kill Zone (título internacional) e lançado aqui no Brasil como ‘Comando Final’. A franquia contava com Donnie Yen (um recorrente na filmografia de Yip) e Sammo Hung (Dragões para Sempre), que também criou as coreografias. Em 2015, o diretor Cheang Pou-soi  (A Lenda do Rei Macaco) realizou a primeira sequência de Kill Zone, chamada de SPL II: A Time For Consequences (ainda sem previsão de lançamento para o Brasil), o elenco era composto por Tony Jaa (O Protetor), Wu Jing (Wolf Warrior), Simon Yam (Eleição: O Submundo do Poder), Zhang Jin (Yip Man 3) e Louis Koo (Drug War). Mesmo com a ausência de Sammo Hung e Donnie Yen, o filme foi um sucesso, devido ao seu elenco cheio de estrelas e um trabalho técnico sensacional!

Com base no sucesso, Wilson Yip retornou para a franquia como diretor/produtor e trouxe consigo ninguém menos do que o lendário Sammo Hung, dessa vez, para dirigir as cenas de ação. Embora a franquia obviamente compartilhe o mesmo universo, seus personagens não são relacionados de um filme para o outro. Paradox sequer gasta tempo fazendo menções à personagens importantes da franquia, funcionando mais como um “What If..?” do que de fato uma continuação.

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Inicialmente divulgado pela imprensa internacional, como o novo filme do ator Tony Jaa (como eu mesmo disse aqui), e que de fato, contém a participação de Tony Jaa (mas apenas como uma ‘participação especial’). Nos primeiros trailers de Paradox, muitas cenas do astro foram exibidas (cenas que estão no filme, não se preocupem), o que causou muita confusão quanto à seu tempo de tela nesse novo filme. Se o que queres é sentar, e ver um filme desse ator em específico, já lhe adianto, que ficará decepcionado, pois seu tempo é realmente curto e seu destaque, é mínimo.

Se em SPL II, Louis Koo tinha feito uma participação especial, e Jaa assumido um dos papeis principais, em Paradox ambos trocam os papeis, Koo é o personagem central da trama, juntamente com Wu Yue.

Paradox é mais modesto do que SPL II quanto à lutas contendo Wire fu (combinação das palavras wire work + kung fu), que são aquelas lutas onde os atores ficam presos à cabos para ajuda-los a lutar no ar ou dar pulos que desafiam a física. Na verdade, a palavra modesto pode definir essa nova entrada na franquia SPL. A começar pela trama simples de pai desesperado que tenta resgatar a filha, sequestrada por traficantes de órgãos…

Yip tentou trazer certa originalidade para a franquia (mesmo que SPL II também lide com sequestro…) e infelizmente, o roteiro de Paradox é uma bagunça do início ao fim, seja por personagens mal desenvolvidos, ou por decisões absurdas tomadas por certos personagens (algumas que até os levam a morte).

O trabalho de câmera é fenomenal, como de costume das produções do diretor. Sempre nos colocando por dentro de cada golpe desferido pelos personagens em cena e fazendo uso de ângulos alternados.

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Existe um padrão de violência seguido nas produções do gênero, porém, Paradox não é nem um pouco sangrento, nas cenas de confrontos de arma branca por exemplo, sempre tem um truque esperto para esconder o excesso. De fato, Paradox é modesto até mesmo em meio as suas cenas mais violentas e pesadas.

Existe uma tentativa de reviravoltas sombrias para quebrar a simplicidade do roteiro. Embora esses plot twists brinquem com a expectativa do espectador, ainda falta muito para causar o choque. Mesmo que o roteiro não seja importante em muitas produções de ação e sequer se levam a sério, obras de ação cujo o roteiro é construído para sustentar o longa independente da pancadaria e tiroteios, são muito mais arriscados. Falta o equilíbrio em Paradox, o equilíbrio da seriedade que a própria trama parece construir.

Ação e drama são sempre dois gêneros arriscados de se mesclar, nesse aspecto, Paradox deixa, mais uma vez, muito a desejar. Um desbalanceamento enorme entre a trama séria e os movimentos conflitantes dos personagens, que caminham para uma conclusão no mínimo obscura. Na busca do impacto dramático, o longa se perde entre os dois gêneros e no fim, não consegue ser excelente em nenhum dos dois, muito menos ser imparcial em meio a sua própria proposta. Para piorar, ainda existe o uso constante da coincidência como um elemento narrativo.

Apesar de possuir sequências de ação muito bem estruturadas, Paradox não consegue apresentar nada novo para a franquia, e é disparado o mais fraco da série de filmes SPL até o momento. Levando-se em consideração os últimos trabalhos do diretor, o filme consegue ser ainda mais decepcionante.

Avaliação: ★★ (Ruim)
Duração: 1 hr 41 min (101 min)
Idioma: Cantonês
Atores: Louis Koo, Wu Yue, Ka Tung Lam, Tony Jaa
Diretor: Wilson Yip

 

 

 

Perigo Extremo (City on Fire) de Ringo Lam.

Em determinado momento de City on Fire (mais uma vez, me recuso a chamar o filme pelo título nacional) Ko Chow (Chow Yun-fat) acaba de chegar em uma boate local, enquanto vai se adentrando no estabelecimento, sendo saldado por conhecidos, Ko Chow ainda se deixa levar ao bom rock chinês dos anos 80, um momento breve, mas que para os mais atentos, notarão a clara homenagem da ótima sequência em que Harvey Keitel dança ao som dos Rolling Stones no início de Caminhos Perigosos. Mas o som aqui em questão é a da cantora chinesa: ‘Maria Cordero’. A música é a mesma que abre esse texto e o motivo de estar ali presente, é o simples fato de que palavras nunca serão o suficientes para se expressar a nostalgia, mas a música, essa sim, instantaneamente nos transporta para essa época distante de nossas vidas.

Essa obra monumental de Ringo Lam, foi realizada, nos já longínquos anos 80, um filme tão repleto da mágica oitentista que você precisa experimentar por si só, ainda mais se você for um amante do cinema asiático, e sendo mais específico ainda, fã dos grandes filmes Heroic Bloosheds provenientes de Hong Kong.

City on Fire possui uma energia que é transbordante do início ao fim e já em seus minutos iniciais, somos instantaneamente transportados para a bela Hong Kong de 1987, onde presenciamos um assassinato em um mercado local. Rapidamente, o mercado está repleto de policiais, e o cenário sangrento já está armado para a trama se desenrolar em suas 1h 41min de duração. Chow Yun-fat não é nenhum rosto desconhecido dos fãs do cinema chinês, muito menos o astro Danny Lee, que juntamente com Yun-fat, estrelaram o clássico absoluto de John Woo: O Matador (1989).

Como sempre, sem entregar muito, a sinopse é a seguinte: “Um policial disfarçado se infiltra em uma gangue de ladrões que planejam  roubar uma joalheria.” Policial infiltrado? Roubo de joalheria? Isso não te lembra nada? Alguém? Claro! O filme de estreia do cineasta americano Quentin Tarantino, o ótimo, Cães de Aluguel. Foi em City on Fire que Tarantino se baseou para criar esse seu prestigiado trabalho… Mas isso é assunto para outra hora.
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Amizade é um constante tema abordado pelo gênero bloodshed, sempre de lados opostos, os improváveis amigos se veem em uma encruzilhada entre a vida e a morte. Esse clichê ainda permeia as produções atuais, porém sentar-se para ver City on Fire é levar em consideração que estamos falando de uma produção de trinta anos de idade. No quesito ação, o longa continua super atual, os tiroteios do diretor Ringo Lam são um grande balé de violência, algo que agrada e muito os fãs do gênero.


Obs.: Filme nunca lançado em DVD no Brasil.

Hideo Gosha: Rank de seus 13 primeiros trabalhos.

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Nessa reta final de 2017, prometi a mim mesmo que focaria em terminar os filmes da carreira do grande cineasta japonês Hideo Gosha. Porém, são muitos os trabalhos de 2017 que perdi, e muitos os trabalhos essenciais do cinema japonês que ainda estão na minha ‘watchlist’. Somando isso com grandes filmes do mundo inteiro, são inúmeros trabalhos para se serem levados em conta e muito pouco tempo para se dedicar a eles. Mesmo nas férias da faculdade, ainda tenho meu trabalho para dar conta, esse, que claro, ocupa boa parte dos meus dias.

Foram treze filmes, feitos entre 1964 e 1982 e faltam apenas mais dez filmes (1983 à 1992) para terminar essa filmografia, que até então, não parou de me surpreender.

Antes de dar sequência nos trabalhos de Gosha, resolvi revisitar alguns de seus trabalhos e refletir sobre sobre seus primeiros dezessete anos em atividade, no fim resolvi fazer um rank cobrindo seus treze trabalhos, de acordo com o meu gosto (é claro).

Nove desses trabalhos foram lançados pela Versátil. Sendo oito nas várias caixas ‘Cinema Samurai’ e um na caixa ‘Cinema Yakuza Vol.1’. Violent Streets, Onimasa, Cash Calls Hell e Bandits vs. Samurai Squadron ainda seguem inéditos no país. Em um futuro Cinema Samurai 7, quem sabe “Bandits vs. Samurai Squadron” não seja lançado? E ainda, quem sabe “Violent Streets” não componha a grade de um super aguardado Cinema Yakuza Vol 3? (Plase, Versátil!).

Futuramente gostaria de falar mais aprofundadamente sobre cada um desses trabalhos, mas por enquanto, espero que isso me baste!

01. Os Lobos
02. Tirania
03. Bandits vs. Samurai Squadron
04. A Espada do Mal
05. Hitokiri: O Castigo
06. Violent Streets
07. Cash Calls Hell
08. Três Samurais Fora da Lei
09. Caçadores das Trevas
10. Onimasa
11. Lobo Samurai I
12. Lobo Samurai II
13. O Segredo da Urna

Me senti um pouco incomodado por ver o chambara de fortes influências no wester Três Samurai Fora da Lei tão baixo na minha própria lista, e ainda mais de ver o melodrama Onimasa em 10º. Essas posições podem mudar em futuras assistidas… quem sabe?  Talvez boa parte do público não concorde com a posição alta do super tradicional Violent Streets, mas o meu amor pelos filmes de Yakuza é incondicional, e Noburo Ando como protagonista é algo que sempre almejei em ver. Além disso, ver um diretor como Mr. Gosha fazer algo que se pode comparar aos grandes trabalhos do Mr. Fukasaku, só me alegra ainda mais!

Tirania ainda é o meu favorito entre seus vários filmes de samurai, e Os Lobos (outro trabalho com tema Yakuza), ainda continua sendo o meu favorito de toda sua filmografia. Os Lobos não só continua um belíssimo filme Crepuscular sobre o gênero Yakuza, como também se sobrepõe como um lindo drama sobre honra e até mesmo sobre ‘encontrar o seu lugar no mundo’. O meu amor pel’Os Lobos parece mesmo ser algo que veio para ficar!

“Chasing the Dragon” trailer legendado do novo filme de Donnie Yen e Andy Lau.

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Um imigrante ilegal constrói um império corrupto na Hong Kong ocupada pelos britânicos em 1963, transformando-se no maior chefão das drogas da história de Hong Kong.

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Depois de sua recente passagem por Hollywood, tendo atuado em ‘xXx: Reativado’ e ‘Star Wars: Rogue One’. Donnie Yen (SPL: Killzone) parece estar seguindo os passos do astro Jackie Chan ultimamente, e não para de pular de um projeto para outro. O mais recente projeto do ator é Chasing the Dragon (ainda sem nome oficial no Brasil), filme onde ele interpretará o chefão das drogas Crippled Ho. Uma espécie de Pablo Escobar chinês que fez carreira nos anos 60/70. Não é a primeira encarnação para o cinema de Crippled Ho, uma vez que Poon Man-Kit filmou em 1991, o clássico “To Be Number One” (também sem título oficial no Brasil).
Donnie Yen ainda tem os vindouros Big Brother, Yip Man 4 e Sleeping Dogs em produção (esse último sendo uma adaptação do jogo de mesmo nome).

Os diretores de Chasing the Dragon são: Jing Wong, da trilogia ‘ O Mestre dos Jogos’ com Chow Yun-fat e o iniciante na direção Jason Kwan, que já vem trabalhando com cinematografia à algum tempo mas nunca havia assumido o cargo de diretor.

Claro que o filme não tem previsão de lançamento para o Brasil, já que aqui só existe espaço para os filmes americanos, mas a vasta e maravilhosa internet irá quebrar o nosso galho, já no mês que vem, em janeiro de 2018, quando o filme for lançado em blu-ray nos E.U.A. Claro que trarei minhas impressões do filme, assim que eu por as mãos nele!

 

 

Edit: Confira a crítica aqui!

“Hana-Bi: Fogos de Artifício” de Takeshi Kitano

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Existe um espiral sem fim dentro do ser humano que se baseia naquilo que sentimos em relação aos outros ou ao mundo, esse oceano profundo e infinito de emoções é aquilo que nos faz ser quem somos. Independente de suas conquistas, tal vazio é parte constante do ser humano, um abismo na qual aprendemos a conviver, e por vezes, devido à grandes decepções proporcionadas pelo nosso cotidiano, falta de oportunidades ou o acaso sombrio que permeia a morte, tal abismo passa a nos consumir.

Por várias vezes na história do cinema, esse sentimento foi abordado, criando obras depressivas que transbordavam beleza. Yasujirō Ozu por exemplo (para citar apenas um nome), tinha a capacidade de olhar para tal escuridão do cotidiano e recriar, através da sétima arte, histórias incríveis com personagens que estão em constante contato com esse espiral sem fim.

Takeshi Kitano já havia se integrado no mundo cinematográfico 8 anos antes desse seu trabalho, com ‘Policial Violento’ em 1989 e já contava com uma versátil filmografia, passeando pelo experimental (A Scene at the Sea), pela comédia (Getting Any? ), pelo drama (Kids Return ) e claro, pelos filmes de Yakuza (Boiling Point e Sonatine). Mas foi somente em 1997, com Hana-Bi: Fogos de Artifício que Kitano viria a ter seu trabalho reconhecido mundialmente, condecoração que levou seus antigos trabalhos a serem reavaliados pelos críticos. Parte disso, se deve ao fato de Kitano ter ganho o Leão de Ouro (em italiano: Leone d’Oro), que é o galardão máximo concedido pelo júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza (Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica), pelo seu trabalho em Hana-Bi, onde ele escreveu, dirigiu e atuou.

“Depois de passar por um trauma e ver seu melhor amigo parar na cadeira de rodas, o policial Nishi decide deixar a força para se concentrar em sua esposa, que possui uma doença em estado terminal.” Até mesmo essa sinopse simples já traz uma das grandes sacadas de Kitano, o minimalismo. Hana-Bi conta com ideias subjetivas que sempre estiverem presentes na sua carreira cheia de registros regressistas.

Mesmo não sendo tão abstrato quanto ‘A Scene at the Sea’, Hana-Bi esbanja um sentimento etéreo, com um olhar impalpável sobre as relações de Nishi, com uma câmera de pura leveza que vive em contraste com a violência. E mesmo em seus momentos mais extremos, Hana-Bi consegue a proeza de permanecer imutável.

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Durante essa jornada finita de decisões feitas no ápice desse furacão composto de sentimentos depressivos, Hana-Bi abre espaço para outros dois personagens brilharem. Horibe (Ren Osugi) que não precisa expressar por meio de palavras toda sua solidão. Basta a simples imagem de suas pinturas, e tudo é exposto de forma mais profunda do que qualquer palavra poderia expor. As pinturas que compõe os sentimentos é como a arte dentro da arte. Um dos raros casos em que um diretor faz uso tão estável da arcaica ‘terceira arte‘. Se Horibe é o primeiro de dois personagens que brilham além de Nishi, o segundo é a música de Joe Hisaishi. A sintonia dos trabalhos dos dois (Kitano+Hisaishi) é quase sobrenatural.

Talvez palavras não sejam o bastante para expor o impacto que Hana-Bi me causou. Esse contato com a arte pode abrir os olhos de muitos para a pintura, para a música e para o próprio cinema de arte! O silêncio também é uma característica que compõe essa jornada morro abaixo na estrada da vida, daqueles desafortunados o bastante para se encontrar de frente com o abismo que habita os nossos corações.

Haba-Bi foi lançado no Brasil pela Versátil em DVD. Uma pena não ter sido lançada em blu-ray… Mas acho que estou reclamando de barriga cheia, uma vez que a versão lançada em DVD está em uma boa cópia restaurada (Ainda assim queria o blu-ray)…

 

Crítica: Eu vi o Diabo (I Saw the Devil) [2010]

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Kim Jee-woon já é um veterano no cinema Sul Coreano, se você buscar agora recomendações de filmes asiáticos, com certeza um ou dois filmes dele estarão presentes. Tendo dirigido 8 filmes e alguns curtas (inclusive o melhor segmento do primeiro Three… Extremes), o diretor já até se aventurou nos E.U.A. com The Last Stand em 2013 (estrelando Arnold Schwarzenegger). Felizmente ele não permaneceu por lá, sendo censurado pelos estúdios hollywoodianos, e resolveu voltar para sua terra natal para continuar fazendo o que lhe der na telha!

Um dos grandes acertos da obra é o seu elenco, Choi Min-sik e Lee Byung-hun! Byung-hun já é um recorrendo nos trabalhos do diretor, tendo trabalhado já em quatro de seus filmes. Já Choi Min-sik não trabalhava com Jee-woon desde o seu trabalho de estreia ‘Tudo em Família’. O filme marcaria não só a reunião do elenco com o diretor como também marcaria o retorno de Choi Min-sik que não trabalhava em um filme de estúdio desde 2005 quando apareceu em Lady Vingança (onde também viveu um serial killer). O motivo de tal exílio era um protesto à “Korean screen quota system” (mais sobre isso futuramente).

Generalizando I Saw The Devil, ele pertence ao Drama Criminal ou indo um pouco mais fundo, daria para incluir aos Thrillers de vingança proeminentes da Coreia do Sul. Porém durante vários momentos, o telespectador pode notar a presença de um outro gênero que perdura o longa: O Horror! Tamanha é a crueza e frieza de certos atos, que o filme é inclusive colocado em listas de ‘filmes horror asiáticos’. Erroneamente, pois a profundidade exposta em I Saw The Devil é tamanha que transcende qualquer gênero aqui citado. Nada de sobrenatural, nada de monstros. Homem vs Homem, essa é a premissa da obra, ou como o próprio título faz alusão figurativamente: Homem vs Diabo. O que fica mais explícito ainda com uma frase dita durante o filme: “Você não pode combater um Demônio sem se tornar um!”. Misture essa frase aos litros de sangue espalhados durante o longa e o resultado é um dos filmes mais brutais e bonitos já feitos.

Não gosto de adiantar qualquer evento específico, mesmo que inicial, com base nisso, a sinopse de forma BEM simples é a seguinte “Um agente secreto busca vingança contra um serial killer através de uma série eventos”. De acordo com a fórmula americana, tal filme deveria ser seco e sem qualquer indício de humor. Longe dessa fórmula, o filme encontra espaço para deixas (mesmo que breves) humorísticas, afinal a mistura de gêneros é uma das fortes características dos diretores asiáticos.
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É difícil escolher qual dos atores principais entrega a melhor atuação. De um lado, Lee Byung-hun consegue demonstrar toda a dor interna de seu personagem nos momentos de perda inicial, a frieza calculista nos momentos subsequentes, e o eventual corrompimento e alcance no fundo do poço na última cena. Do outro lado, Choi Min-sik, que mais uma vez demonstra conforto na pele de personagens psicopatas (isso foi um elogio), e com um absurdo olhar de frieza convincente. Basta sua presença para o clima pesado do filme se subverter em uma frieza brutal.

A selvageria dos atos mostrados na tela pode afastar muitos não acostumados com filmes do tipo. Kim Jee-woon não corta qualquer sequência violenta. Indo na contra mão, ele prolonga o máximo possível os atos desumanos e ainda faz o uso de closes no ápice da selvageria.file_551418_isawthedevilreviewAlguns poucos pontos fracos exclusivamente técnicos podem ser encontrados em I Saw The Devil, como os cortes rápidos no primeiro confronto entre os dois protagonistas ou na captura ‘final’ envolvendo um carro sem uma das portas… Mas isso não é nada que tire o brilho da maravilhosa carnificina filmada em 360º dentro de um carro, com uso sonoros de facadas bastante incômodos por serem bastante realistas ou do uso de câmera na mão em sequências como a do descobrimento de uma certa ‘cabeça’ decapitada flutuando em meio ao rio cercado pela perícia, mídia e curiosos que se aglomeram. Kim Jee-woon não poupa esforços em estender a tensão nos momentos mais fortes, sequências desesperadas e até mesmo na iminente sequência de ação que ocorre em um mansão, lar de um canibal local.

“O mau atrai o mau”, nunca essa frase fez mais sentido do que em Eu vi o Diabo. Kyung-chul (Choi Min-sik) se depara com inúmeros malfeitores locais em sua fuga, de ladrões até o já citado canibal (este último já conhecido de Kyung-chul). Claro que todos encontros, de uma forma ou de outra, acabam em um banho de sangue.
Em uma fórmula tradicional teríamos o desfecho com um close-up do sorriso maligno daquele que viu, combateu e se tornou o Diabo… Como essa não é uma obra padrão, temos um desfecho em lágrimas, em desespero, daquele que alcançou o fundo do poço em nome da fria vingança, que lhe custou tudo, inclusive sua alma.

Violência: 05/05

Nota Final: 05/05

 

Filme nunca lançado no Brasil, infelizmente! Esse é um dos raros casos de que não gostaria de ver um lançamento em DVD, não quero, não faz sentido, esse eu quero o Blu-Ray! É por isso que vou importar no fim do mês! =]

 

Crítica: A Vilã (The Villainess), trabalho técnico de altos e baixos com enredo esquecível.

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Um dos muitos filmes asiáticos esperados por mim em 2017, era exatamente a obra ultra violenta de Jung Byung-gil “A Vilã”. O filme serviria como uma espécie de redenção minha em relação ao trabalho de Byung-gil, uma vez que sua obra máxima até então (não que ele tenha muitos trabalhos), Confissão de Assassinato, não me agradou de praticamente nenhuma forma (apenas o aspecto técnico me agradou). Apesar do hype, não foi dessa vez que entrei em sintonia com o trabalho do diretor.
Exibido no ‘Festival do Rio 2017‘ com o nome válido de A Vilã, o filme se mostra extremamente fiel a todos excessos prometidos em seu anúncio: Muita ação, muita violência e uma Kim Ok-bin badass! Confesso que não assistia nenhum projeto com ela desde 2009 com o primoroso “Sede de Sangue” de Park Chan-wook. Outro rosto conhecido que não via já à algum tempo era o de Shin Ha-kyun, que também trabalhou em Sede de Sangue mas que talvez você o conheça como o protagonista mudo de Mr. Vingança! Já não bastasse o elenco animador, toda a premissa do filme já se mostrava interessante para saciar a sede de sangue de muitos espectadores e aficionados pelo cinema Sul Coreano, inclusive a minha!
O filme começa com uma sequência em primeira pessoa, bem no estilo Hardcore Henry, só que mais polida. É fácil se deixar levar nos primeiros minutos de The Villainess, onde Sook-hee (Kim Ok-bin) sai distribuindo pancadas em uma sequência bem conduzida e brutal, com acrobacias mirabolantes, lutas de facas, tiroteio e muito violência. Em determinado momento, a câmera decide deixar a visão em primeira pessoa e finalmente nos mostrar o estilo original criado pelo diretor para demonstrar toda a ação. Sem o uso de cortes rápidos, o diretor optou por usar ângulos fora do padrão enquanto a ação ocorre, além de fazer tudo parecer um longo plano-sequência, mas que na verdade são cenas filmadas de formas independes e corrigidas com o uso de CGI para parecer ininterrupto. Falando em computação gráfica, Jung Byung-gil parece ter feito um propósito de abusar de CGI em certas sequências, o que me causou muito desconforto enquanto as asistia, uma vez que detesto o excesso de CGI em filmes de ação.
A Vilã
Em certos momentos do longa, Byung-gil parece se desligar um pouco de tudo que construiu no início e decide apelar para algumas técnicas preguiçosas durante cenas de ação, com o uso de cortes rápidos e da terrível Shaky Cam, que inclusive, essa última, defendida por alguns entusiastas como uma “escolha de design”. Nenhuma palavra enfeitada nesse mundo pode tirar da minha cabeça que isso não passa de preguiça e falta de competência. O estranho é ver Jung Byung-gil alcançar um patamar de técnicas incríveis para se filmar algumas sequências de ação, como na batalha final dentro de um ônibus por exemplo, onde os ângulos são fenomenais e totalmente inusitados, fazendo por vezes me perguntar “Como diabos filmaram isso?” e em outras abusar do “Slow Motion CGI” padrão dos esquecíveis filmes de super heróis de hoje em dia e ainda descer mais o nível e fazer o uso da famigerada câmera balançando. The Villainess é sem dúvida nenhuma uma mistura técnica absurda, um turbilhão de êxtases e decepções.
Nesse ponto você talvez esteja se perguntando: “Mas e quanto ao enredo do filme?”. Pois é… e o enredo?… Acho que se esqueceram de fazer um e optaram por pegar uma história aleatória de alguma novela mexicana por aí…

Avaliação: ★ (Muito ruim)
Duração: 2 hr 9 min (129 min) 
Idioma: Coreano
Elenco:  Kim Ok-bin, Shin Ha-kyun, Jun Sung
Diretor: Jung Byung-gil